HISTÓRIA DO JORNALISMO CULTURAL NO BRASIL

 

Folhetim (1808 - 1899)

Cobertura cultural na imprensa geral – Embora os primeiros cadernos culturais só apareçam no século XX, podemos dizer que o destaque aos assuntos culturais na imprensa brasileira vem desde seu nascimento. Basta vermos os títulos completos do nosso primeiro jornal, Correio Brasiliense ou Armazém Literário , e da primeira revista, As Variedades ou Ensaios de Literatura . Ambas as publicações pareciam livros - tanto o jornal, editado em Londres por Hipólito José da Costa entre 1808 e 1822 e distribuído clandestinamente no Brasil, quanto a revista, de que saíram dois números em Salvador em 1812, numa iniciativa do livreiro Manoel Antônio da Silva Serva. Entre as seções do Correio , figuravam “Comércio e Artes” e “Literatura e Ciências”.

Ao longo do século XIX, os jornais brasileiros eram menos órgãos noticiosos que veículos políticos - a princípio, lutavam pela Independência; durante o Império, serviam para marcar o apoio a esta ou aquela facção; até culminar com a promoção das campanhas abolicionista e republicana. Isto não impediu, porém, que a cultura sempre se fizesse presente em suas páginas. O mais importante jornal do começo do Império, A Aurora Fluminense (1827-1839), nasceu com três seções: “Interior”, “Exterior” e “Variedades”; nesta, conforme Bahia (1990, p. 47), o editor Evaristo da Veiga explicava já na “Introdução” do primeiro número, de 21 de dezembro de 1827, que teriam lugar “as correspondências que aos nossos concidadãos aprazer ( sic ) enviar-nos, as análises de obras interessantes literárias, ou políticas, hinos nacionais, e de todos os fragmentos de literatura, que de ordinário os outros jornais compreendem no artigo Variedades ”.

O teatro em seguida passou a ser presença freqüente na imprensa. Ele era citado, por exemplo, já no nome d' O Espelho Diamantino Periódico de Política, Literatura, Belas Artes, Teatro e Modas Dedicado às Senhoras Brasileiras , considerada nossa primeira revista feminina, que circulou entre 1827 e 1828. Em jornal, a mais antiga citação que localizei foi a curiosa publicação em O Amigo do Homem e da Pátria (Porto Alegre, 30 de outubro de 1829), de um ofício do comandante militar de Rio Grande (RS), coronel Joaquim Antônio de Alencastre, dirigido ao cônego Antônio Vieira Soledade, e relatando que as homenagens na cidade ao aniversário do imperador D. Pedro I haviam incluído uma peça representada pelos oficiais do 17º Batalhão em teatro particular. Em 1830 há um anúncio publicado em O Constitucional Rio-Grandense , de Porto Alegre, relativo a uma peça representada novamente numa residência particular.

O Noticiador , de Rio Grande, aludia em 1832 a apresentações teatrais na própria cidade e na vizinha Pelotas.

Justiniano José da Rocha publicou críticas com regularidade entre 1836 e 1846 nos jornais cariocas O Cronista e O Brasil . O destaque à crítica variava de jornal para jornal – ela tanto podia sair, como em O Brasil em 1841, na seção “Folhetim”, quanto ocupar toda a capa. Foi o que fez em 3 de novembro de 1872 A Reforma (Jaguarão, RS), que dedicou a primeira página inteira a um “Estudo crítico” sobre a representação do drama A Morgadinha de Valflor . Também se tornam freqüentes as notas sobre artistas (a revista O Brasil Ilustrado , do Rio de Janeiro, de 31 de dezembro de 1856 trouxe uma “nota biográfica” algo extensa do ator João Caetano), crônica sobre atividade teatral (já no Jornal do Comércio do Rio em 1850, por um certo “Espectador”) e comentários sobre peças (o Diário de Rio Grande , em 1854, comenta as apresentações de João Caetano na cidade). Já em 1893, notícias de leituras dramáticas constam no Diário Popular (São Paulo) e Correio Mercantil (Pelotas).

Maior que a presença do teatro nas páginas culturais na época, só mesmo a da literatura. Havia poucas editoras no Brasil. Os escritores que não conseguiam publicar em Lisboa ou Paris buscavam na imprensa um veículo para sua produção ou mesmo fonte de renda - a remuneração a jornalistas era baixa, mas não se exigia exclusividade.

A revista O Beija-Flor – Anais Gerais de Ciência, Política, Literatura etc. etc. ( sic ), em 1830, publicou a primeira novela brasileira – Olaya e Julio, ou A Periquita . O texto, hoje atribuído a Charles Auguste Taunay, saiu anônimo, assim como era a publicação, de propriedade de “uma sociedade de literatos”. O anonimato jornalístico era permitido pela Constituição imperial. Olaya... saiu nos números 4 a 6 de O Beija-Flor , seis anos antes do texto de Balzac considerado o primeiro romance-folhetim francês. A publicação de romances-folhetins, entretanto, era mais comum em jornais.

Manuel Antônio de Almeida, assinando-se “Um Brasileiro”, publicou Memórias de um Sargento de Milícias em A Pacotilha (Rio de Janeiro) em 1852- 53. A Pacotilha pode ser considerada um precursor dos suplementos de final de semana, embora não circulasse como encarte: tratava-se da edição dominical do jornal Correio Mercantil , que a manteve de fevereiro de 1851 a junho de 1854, sempre publicando sátiras a políticos do Partido Conservador (o Correio era ligado aos liberais).

Além d' O Brasil , outro jornal que publicava uma seção denominada “Folhetim” era o Jornal do Comércio , desde 1838. Esta parte dos jornais podia trazer, além do romance em capítulos ao qual o nome ficou associado, contos, poemas, crônicas e eventualmente críticas sobre política, teatro, literatura e o que mais tarde passou a se chamar coluna social. Em 1855, o cronista José de Alencar foi demitido do Correio Mercantil por criticar as especulações na Bolsa de Valores. Para não correr novamente o risco de demissão, adquiriu com alguns amigos o Diário do Rio de Janeiro , onde publicou em 1856 seu romance Cinco Minutos em folhetim. Uma edição do texto completo foi oferecida como brinde aos assinantes do Diário . A obra, estréia de Alencar em livro, registrou grande procura também de parte de não-assinantes.

A polêmica literária era comum na época. Nela, dois críticos de jornais diferentes argumentavam contra ou a favor de determinado autor. Ficou célebre em 1856 uma polêmica em que Alencar criticava no Diário a concessão de verba imperial para edição do poema A Confederação dos Tamoios , de Gonçalves de Magalhães, enquanto o patrocínio era defendido no Jornal do Comércio pelo próprio imperador D. Pedro II, a princípio oculto por pseudônimo. Outras vezes a polêmica saía do papel e chegava às vias de fato, como em Florianópolis, quando, após criticar em O Conservador um livro de Eduardo Nunes Pires, Virgílio Várzea foi forçado pelo escritor a engolir o papel onde escrevera a crítica.

O poder de influência da imprensa foi testado quando da original campanha de lançamento do romance O Mulato (1881), de Aluísio de Azevedo. Anúncios no jornal A Pacotilha (São Luís), cartazes nas ruas e uma notícia em O Pensador informavam a chegada breve à capital maranhense do “distinto advogado Dr. Raimundo José da Silva” – um dos personagens do livro. A primeira edição, de 2 mil exemplares, esgotou-se em poucos dias. O autor tentou repetir a promoção em 1884: pouco antes do início dapublicação de Filomena Borges no folhetim da Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro), Azevedo mandou uma carta ao redator do jornal, contando ter chegado de uma visita à casa de Filomena e detalhando sua triste vida. Desta vez, porém, a idéia não funcionou.

No final do século, os jornais começam a destacar as novas espécies de diversões públicas. Anúncios na Gazeta de Notícias convidam o público em 1896 para ver um museu de cera e apreciar uma exposição de panorama – uma pintura retratando um determinado local em 360 graus; em 1897, para as primeiras exibições de cinematógrafo; e em 1898 para projeções de fotografias. A Gazeta também comenta em 1897 a audição de discos de fonógrafo, especialmente para a imprensa; além de noticiar em 1899 a demonstração de fonógrafo ocorrida durante um número de ilusionismo em teatro.

Veículos especializados – Semelhante ao verificado em relação à imprensa geral, teatro e literatura dominam o campo de publicações especializadas em cultura no século XIX. Eram relacionados com o palco: o panfletário jornal O Coruja Teatral (Rio de Janeiro), de 1840; a Revista Teatral , publicada por estudantes de Recife em 1850; e a Revista Dramática (Rio de Janeiro), semanal, que publicou quatro números em maio de 1860. Em Porto Alegre , circularam no período a revista literária O Guaíba (1856) e a Revista Mensal da Sociedade Partenon Literário (1869-79), ligada à referida associação de escritores. Já no ano de estréia a revista noticia a representação de uma peça em Cachoeira do Sul (RS) cuja renda seria doada à campanha abolicionista.

Suplemento (1900-1950)

Cobertura cultural na imprensa geral – Os veículos políticos que expressavam apenas a opinião do dono começam a dar passagem nesse período aos órgãos de empresas jornalísticas preocupados em informar o leitor e com uma eficiente administração dos recursos, aspecto praticamente ignorado até então.

O folhetim segue recebendo o maior destaque na parte cultural dos jornais. O Correio do Povo (Porto Alegre) publica na capa os capítulos de Ivanhoé , de Walter Scott (1912). Doze anos depois, o maior salário da imprensa carioca pertencia ao romancista Benjamin Costallat, autor de folhetins policiais: 500 mil-réis, o dobro que recebia o redator-chefe melhor remunerado na época. Quase toda a produção de romances de Lima Barreto, antes de sair em livro, aparece primeiramente em folhetins entre 1905 e 1915. Nem todos em jornal: Recordações do Escrivão Isaías Caminha tem os primeiros capítulos publicados em 1907 na revista Floreal , que Lima fundara com amigos. Crítica contundente aos donos de jornal, o livro foi ignorado pela crítica quando do lançamento em 1909. No Correio da Manhã do Rio de Janeiro, Lima Barreto jamais voltou a ser citado nos 60 anos seguintes, enquanto o jornal permaneceu nas mãos da família de Edmundo Bittencourt. Só com a chegada das novelas de rádio o folhetim deixa de ocupar espaço nobre na imprensa. As eventuais ressurreições já não contam com material escrito especialmente para o jornal – por exemplo, o romance que a Folha da Tarde , de Porto Alegre, publicou em 1950 era Os Cães Selvagens , de Charles Dickens.

A revista Diretrizes , criada por Samuel Wainer e Azevedo Amaral em 1938, foi um marco importante: um órgão anti-fascista em pleno Estado Novo. Antes de ser fechada por ordem de Getúlio Vargas em 1944, veiculava artigos de política, economia e cultura dos principais jornalistas e escritores do país – inclusive com um folhetim escrito a dez mãos por Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Aníbal Machado, intitulado Brandão entre o Mar e o Amor .

O cinema começava a ser tratado como uma expressão artística, com a publicação de apreciações sobre os filmes exibidos que a Gazeta de Notícias iniciou em 1902. Muitas vezes os comentários eram inseridos em crônicas que abordavam o que ocorrera na sessão – reações dos espectadores, algum incidente etc. Em 1929, o Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) passa a dedicar uma página inteira a cinema - a exemplo do que já faziam desde 1928 o jornal A Notícia (Florianópolis) e a revista O Cruzeiro (Rio de Janeiro) - esta apresentando, ao lado dos melhores escritores e cronistas do país, seções fixas de cinema, teatro e rádio. A cobertura de rádio d' O Cruzeiro passou a ter em 1936 várias páginas coloridas a cada edição, para fazer frente à concorrência da Revista do Rádio (Rio de Janeiro). O novo meio de comunicação também ganha uma coluna no Jornal do Brasil em 1930.

Cadernos culturais – Os principais jornais brasileiros habituaram os leitores a suplementos coloridos no final de semana já no começo do século XX. O Jornal do Brasil , em 1900, aproveitando o sucesso da recém-lançada Revista da Semana – que associava fotos e caricaturas a textos leves – adquiriu-a e passou a encartá-la na edição dominical. Mais tarde, O Cruzeiro tentou fazer o mesmo com a revista A Cigarra , comprada em 1935 pelo proprietário dos Diários Associados, Assis Chateaubriand. A idéia não teve sucesso, pois A Cigarra só entraria no reparte d' O Cruzeiro destinado a São Paulo, substituindo material da edição nacional – ou seja, como disse Accioly Netto (1998, p. 69), “precisaríamos ter, em cada número, 16 páginas supérfluas”. A idéia foi abandonada devido à queda nas vendas d' O Cruzeiro . Outro caso de encarte foi a veiculação do jornal A Manha pelo Diário da Noite (Rio de Janeiro). Pertencente a Apporelly - futuro Barão de Itararé -, A Manha , órgão precursor da imprensa alternativa criado em 1926, parara de circular em 1928, voltando em 1929 como encarte semanal do Diário a pedido de Chateaubriand. Cada jornal conservava sua redação e sua captação de publicidade, havendo inclusive diferença no acerto com as bancas, ocasionando desentendimentos que levaram Apporelly em 1930 a optar pelo fim do acordo com os Associados.

O Correio do Povo cria em 1935 o caderno “2ª Seção”, que aos domingos trazia cinema e artes junto a turfe e classificados. Em 1941, A Manhã (Rio de Janeiro) lança o “Suplemento Autores e Livros”, que então veiculava apenas autores identificados com o Estado Novo. Em 1946, já com o nome de “Suplemento de Letras e Artes”, o caderno passa a publicar a seção “Arquivos Implacáveis”, de João Condé. Fechando o período, surgem os suplementos literários do Diário de São Paulo (1946), do Diário de Notícias (Rio de Janeiro, 1946) e da Folha da Manhã (São Paulo, 1950).

Veículos especializados Kosmos , lançada em 1904, foi a primeira revista de cultura a publicar reportagens, rompendo com o modelo das revistas lançadas a partir da década de 1860, nas quais o texto servia basicamente de apoio para as charges, que eram o “prato principal” da publicação. Essas reportagens eram de autoria de João do Rio, que passou à história literária brasileira como cronista – e os textos de suas reportagens, tanto em Kosmos quanto na Gazeta de Notícias , hoje poderiam passar perfeitamente por crônicas. A grande inovação é que o jornalista saía da redação para buscar nas ruas o seu assunto, buscando entender e trazer ao leitor o dia-a-dia da capital federal.

O cinema passa a ser assunto predominante ou ao menos muito destacado em revistas lançadas por editoras que já tinham publicações de humor ou ligadas a lazer: Selecta (1914-30), Para Todos (1918-32), A Cena Muda (1921-55) e Cinearte (1926-42), criada a partir da seção de cinema de Para Todos por Adhemar Gonzaga, com o auxílio de Pedro Lima, vindo de Selecta . Como o nome indica, Cinearte se afastava tanto do modelo vigente nos jornais - em 1925, João Raimundo Ribeiro, com o pseudônimo de Fiteiro , ainda comentava no Correio Paulistano incidentes ocorridos durante a sessão do filme, tal como a Gazeta de Notícias em 1904! - quanto do nascente nas revistas, voltado ao culto ao star system de Hollywood. Este culto se reforçou quando da reestruturação d' O Cruzeiro em 1931, com o recebimento de fotos direto dos estúdios. Em Cinearte , Gonzaga impõe-se como crítico, noticiando filmagens, discutindo o modelo de filme brasileiro e debatendo a questão da distribuição. Em pouco tempo, passa da palavra à ação, fundando a Cinédia (cujo primeiro nome foi Cinearte), o primeiro estúdio brasileiro importante. Mais voltada à divulgação dosprogramas de filmes e peças, destaca-se no período a revista Palcos e Telas (1918-21).

A Semana de Arte Moderna de 1922 prolongou-se no aparecimento de várias revistas ligadas ao movimento: Klaxon e Revista de Antropofagia (São Paulo), A Revista (Belo Horizonte) e Verde (Cataguases, MG). Além da produção dos poetas e escritores modernistas, estas publicações podiam trazer notas e críticas sobre livros e filmes. A principal causa do surgimento destas revistas foi o fechamento das portas da imprensa diária ao movimento – por exemplo, Chateaubriand negou apoio à Semana, pois, de acordo com Morais (1994, p. 128), não queria “desagradar o capitalismo”. Em 1929, porém, Chateaubriand concedeu uma página dominical no Diário de São Paulo à Revista de Antropofagia , que havia parado de circular. Os repetidos ataques de Oswald de Andrade a antigos companheiros de movimento, como Paulo Prado e Mário de Andrade, levaram ao cancelamento da página em poucos meses. Fora incidentes como este, estas revistas duravam pouco, por dificuldades relativas a publicidade e circulação.

Outras revistas literárias do período foram: Lanterna Verde , Leitura , Letras e Artes e Orfeu (Rio de Janeiro), Revista do Globo , Quixote e Província de São Pedro (Porto Alegre) e Revista Sul (Florianópolis). A primeira revista especializada em música, Phono-Arte , surgiu no Rio de Janeiro em 1928, fazendo crítica de discos e de edições em partitura. Música também era um dos temas de Clima . Editada por estudantes paulistas entre 1941 e 1943, a revista tratava ainda de artes plásticas, literatura, ciência e cinema. Foi a primeira a veicular ensaios longos sobre filmes, sem a limitação de espaço do jornal diário.

Caderno (1951-2000)

Cobertura cultural na imprensa geral – A Última Hora (Rio de Janeiro) surge

em 1951 com inovações em relação ao modelo de jornal vigente na época: cria uma rede, com sete edições regionais – além da edição carioca, as capitais São Paulo, Niterói, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife contavam com material produzido por equipe local; inova no projeto gráfico, valorizando o uso da imagem; e apresenta-se como um veículo porta-voz das camadas populares. Esta ligação com o popular talvez tenha sido o maior diferencial do veículo criado por Samuel Wainer, que consolidou ainda o modelo de texto mais objetivo, aos moldes do jornalismo americano (o que, sem a renovação gráfica, o Diário Carioca começara a fazer em 1950). O design da Última Hora inspirou ainda o visual de A Hora (Porto Alegre, 1954). Já a rede da Última Hora em nada se parecia com a “cadeia” dos Diários Associados, cujos veículos só tinham em comum pertencerem ao mesmo dono. Wainer repetiu a idéia em uma revista, Flan (1953), com três cadernos fixos (esporte, cultura e política) em todos os exemplares, mais um caderno diferente nos repartes carioca e paulista. O conceito de rede voltou a ser utilizado pela Gazeta Mercantil (São Paulo) a partir de 1979, com impressão simultânea a laser em São Paulo , Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador.

Alguns veículos não tinham cadernos culturais: O Estado de Minas (Belo Horizonte) veicula a partir de 1956 a seção “Letras e Artes” aos domingos; já o Correio Paulistano , antes de conceder uma página, “Invenção”, aos poetas concretos em 1960, destinava apenas duas a três páginas diárias à cobertura cultural. Mas a tendência do período é mesmo a veiculação pelos jornais de um caderno diário abordando o dia-a-dia dos setores culturais e artísticos (como o “Caderno B”, lançado pelo Jornal do Brasil em 1960), enquanto as análises mais aprofundadas eram destinadas aos suplementos do final de semana. Alguns destes espaços diários, porém, marcaram época. Em Porto Alegre, destacaram-se a coluna de teatro que Fernando Peixoto manteve na Folha da Tarde entre 1957 e 1963 (que chegou a ter uma página inteira), e as colunas de cinema de Goida na Última Hora (1961-64) (também com uma página) e de P. F. Gastal, que se assinava Calvero , na Folha da Tarde (a partir de 1955). Em sua coluna “Sete Dias de Cinema”, Gastal criou em 1967 a “Equipe das Terças”, em que outros jornalistas ou mesmo estudantes assinavam a seu lado comentários sobre os filmes que estreavam na segunda. Nestes espaços, Goida e Gastal não se diziam críticos – o primeiro por considerar que a página permitia, além da crítica, publicar notícias, entrevistas, programação etc., o segundo por destinar a coluna a uma primeira apreciação do filme, que após ser visto outra(s) vez(es) seria então devidamente criticado nos suplementos de final de semana. Ao contrário destes, os cadernos diários demoraram a ser valorizados –a poetisa Adalgisa Nery recusou-se a assinar coluna no segundo caderno da Última Hora carioca, que classificou como “caderno de mulher”, impondo a Wainer sua inclusão no “caderno dos homens”, onde estavam notícias de política e economia.

Cadernos culturais – A renovação visual e de conteúdo iniciada por Diário Carioca e Última Hora recebeu a importante adesão do Jornal do Brasil em 1956, ano em que surge o “Suplemento Dominical”. Este, mais que registrar ou comentar a movimentação artística e cultural, participou ativamente dela, ao dar espaço a porta-vozes de movimentos que sacudiam o panorama artístico da época, como o concretismo e o neo-concretismo. O artigo de Ferreira Gullar “Teoria do Não-Objeto”, que saiu em 1959 no suplemento, foi veiculado como encarte quando da 2ª Exposição Neoconcreta , em 1960. O projeto do Jornal do Brasil inspira o “Suplemento Literário” d' O Estado de São Paulo (1956), a “Folha Ilustrada” da Folha da Manhã (São Paulo, 1958)(origem da atual “Ilustrada” da Folha de São Paulo ), o Suplemento Dominical” do Diário de Notícias (Salvador), o “Quarto Caderno” do Correio da Manhã e o “Caderno de Sábado” do Correio do Povo (1967).

Curiosamente, o “Suplemento Literário” d' O Estado de São Paulo , tablóide, não segue o formato do jornal (standard), característica mantida por décadas nos futuros cadernos culturais d' O Estado , como o “Suplemento Cultural” (1976) e “Cultura” (1980). Apenas com o standard “Caderno 2” (1986) os assuntos culturais recebem um espaço similar ao das outras editorias.

Veículos especializados – Continuam a ser lançados veículos culturais, principalmente revistas, quase sempre de curta duração. Surgem as revistas Crucial (Porto Alegre, 1951), Anhembi (São Paulo, 1950), Revista da Música Popular (Rio de Janeiro, 1954), Revista do Livro (Rio de Janeiro, 1956), Litoral (Florianópolis, 1958), Revista de Cinema (Belo Horizonte) e Macunaíma (Rio de Janeiro, 1960). Novamente estudantes são responsáveis por lançamentos, como o de Ângulos (Salvador). Mesmo que já houvesse uma acolhida na imprensa geral, movimentos de vanguarda não dispensam veículos próprios, como a concretista Invenção .

Editoras lançam revistas com formato de livro, como a Revista Civilização Brasileira , em que promovem amplos debates literários e políticos – até que a ditadura militar e a censura os fecham ou tornam mais aconselhável o abandono dos projetos.

Ainda assim, nos anos 70, aparecem várias publicações promovendo a leitura, ligados ou não a editoras, como Leia e Ficção . O fechamento de vários veículos e a censura prévia levam à criação da imprensa alternativa, que se propunha a publicar o que não podia sair na imprensa geral. O Pasquim e Opinião (Rio de Janeiro) e Movimento e Bondinho (São Paulo) são exemplos de publicações que aliaram em doses maiores ou menores o combate à ditadura, o humor, a denúncia e a cobertura cultural diferenciada da praticada pelos jornais diários.

Alguns destes órgãos conseguiram boa vendagem, mesmo na pior fase da ditadura. Sua manutenção após a anistia, porém, se mostrou inviável devido à onda de atentados terroristas a bancas que os vendiam no começo dos anos 80.

Nos últimos anos, consolida-se o modelo de revista mensal calcada na veiculação de ensaios culturais, com a cobertura possível - considerando-se a periodicidade - da movimentação artística, casos das paulistas Bravo! e Cult (ambas criadas em 1997) e da gaúcha Aplauso (1998).

 

Fonte: Jornalismo Cultural Fabio Gomes

www.jornalismocultural.com.br


Postado em: 29/09/08

 

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