No Bar do Paulo, as vitrolas estão preservadas para rodar o acervo de 5 mil vinis

 


Paulo, o imortal da boemia - colecionando muito mais que vinis

Há 34 anos, o Bar do Paulo, em Arapiraca, continua sendo uma referência cultural, enquanto a bisteca de porco de dona Antônia está sempre no capricho

Santo Antônio é casamenteiro; Santa Rita de Cássia, dos casos impossíveis e dos desentendimentos na família; Santa Edwiges, dos endividados; Santa Cecília, protetora dos músicos, dos poetas... Se você procurar na Internet, tem santo para muitas causas, só não há o protetor da noite, dos boêmios. Mas quem viaja até Arapiraca sabe que existe um lugar sagrado para a boemia: o famoso Bar do Paulo. Para muitos fiéis, o senhor Paulo Lourenço da Silva é um anjo da noite e, acreditem, até Jesus já esteve no Bar do Paulo para conferir as benfeitorias do alagoano, que atrai multidões para o bairro do Ouro Preto, 357. Bom, na verdade, o Jesus existiu de fato, só que na pele do global Murilo Rosa, que fez
o papel principal na Paixão de Cristo, no Morro da Maçaranduba.

A primeira noite foi tranqüila. Murilo Rosa conversou com Paulo e escolheu discos para ouvir, tudo na santa paz. Mas sabe como é, notícia se espalha rápido no interior. Durante três dias, a multidão correu para o Bar do Paulo para ver o ator da Globo bem de perto. “Murilo foi supersimpático, ficou amigo da gente. Na terceira noite entrava direto na cozinha para pegar refrigerante.

Teve uma noite que ele dançou forró com uma moça, eu imagino que ela ainda sonha com esse dia”, lembra Paulo.
O Bar do Paulo é um lugar de muitas lembranças e histórias regadas a cerveja gelada e a famosa bisteca de porco feita no capricho pela sua amada, dona Antônia. O tempo passou, mas o nosso Paulo, com os seus 74 anos, não mudou, continua simpático, bom de papo e apaixonado pelos seus mais de cinco mil vinis, que não vende e não troca por nada.

Aliás, não leve CD pirata para o Bar do Paulo porque é um pecado mortal e também não peça para tocar músicas bregas, como as das bandas Mastruz ou Cuscuz com Leite, porque a penitência é pior ainda e sem perdão. O Bar do Paulo é uma referência das boas músicas
brasileira e internacional, ou seja, é um ádito cultural.

Mas, como todo santo, também é preciso perdoar. Paulo recorda que, certa vez, um amigo (todo cliente do bar é amigo) estava com a maior dor-de-cotovelo porque a amante tinha ido embora da cidade. “Ele chegou arrasado ao bar e dei total apoio e, como ele chorava feito menino, não pude dizer não ao pedido de colocar o CD de Roberto Carlos várias vezes. Eu não tenho nada do Rei, mas eu gosto de algumas músicas dele na voz de outros cantores. No final das contas vi o dia amanhecer ouvindo Roberto Carlos e escutando todas as lamentações do meu amigo”.
Nos 34 anos do Bar do Paulo, muita gente famosa já passou pelas suas mesas,
como o cantor Alceu Valença, que, após
a realização de um show em Arapiraca,
chegou ao bar perguntando se tinha
cerveja gelada. Como não tinha mais
lugar, sentou na caixa de cerveja, visitou
o quartinho dos vinis e aproveitou para
autografar um disco. Na lista de visitas
ao cantinho sagrado da música constam
Xangai, Ivanildo Vila Nova, Hermeto
Pascoal, Quinteto Violado e também uma
romaria de músicos e compositores
alagoanos.

O Bar do Paulo é singelo, com mesas e cadeiras de ferro;
um lugar sagrado. E o santuário é o quarto dos vinis, com
uma velha radiola, que toca tudo o que você imagina e não
imagina, como toda a coleção de Elis Regina (uma paixão
platônica de Paulo), Ray Charles, Jamelão, Clementina de
Jesus, Jorge Ben, Bing Crossy, enfim, a fina flor da Música
Popular Brasileira, do jazz, do blues, do samba...
Simplesmente, o Bar do Paulo tem alma e é isso tudo.



Amigos do Paulo querem criar projeto de musicoteca


No ano de 2001, a Organização Não-Governamental Candeeiro Aceso, com sede na cidade de Arapiraca,
que tem a arte e a cultura como foco de atuação, fez uma bela campanha de revitalização do Bar do Paulo.
Através da campanha, feita só com amigos, o bar ficou um brinco.
Passados seis anos, o bar carece de outra campanha dos amigos para uma nova reforma, como pintura e
outras melhorias na estrutura física.
Ainda não houve nenhuma reunião para criar um projeto, mas os fãs do Paulo já começaram a cogitar uma
nova campanha.
Conversamos com Adriana Guimarães, arquiteta do Pró-Memória, da Secretaria de Estado da Cultura, sobre a possibilidade de fazer um projeto para revitalizar e conservar o Bar do Paulo.
Na opinião de Adriana Guimarães, os cinco mil vinis formam um acervo valioso, e o ideal é que a reforma da
casa seja associada a um projeto de conservação e preservação dos discos para pesquisas e estudos.
O músico Júlio Campos conhece o Bar do Paulo desde 1987, quando chegou do Rio de Janeiro. Para ele, o
acervo musical é de primeira, com raridades dignas de qualquer colecionador.
Segundo o músico, o projeto ideal para o bar é uma musicoteca, um espaço onde as pessoas possam
ouvir músicas, pesquisar e estudar.
Esse tipo de projeto já existe em alguns lugares, mas o acervo do Paulo não tem nada igual.

A musicoteca, além de restaurar e conservar o acervo, também será digitalizada. Com certeza, esse projeto
é importante e não tenho dúvida de que, se chegar a ser concretizado,
tem público porque o
sonho de muito músico e de muita gente é ouvir o melhor da MPB, do jazz e do blues. Será fantástico?, diz
o músico.

Já existem voluntários, como
Adriana Guimarães (arquiteta),
Carmem Dantas (museóloga), Júlio
Campos (música), Luciano Milano
(jornalista) e Marcelo Amorim
(Candeeiro Aceso), que, em janeiro,
vão arregaçar as mangas para formatar
o projeto e cair em campo para
criar a musicoteca no Bar do Paulo,
um bom equipamento cultural em
Arapiraca.


HISTÓRIA

O bom gosto musical de Paulo Lourenço revelou-se quando ele morava em São Paulo, onde trabalhou numa boate e pizzaria como garçom. Eu já gostava de vários cantores da música brasileira, como Nelson Gonçalves, Elis Regina, Ângela Maria e Linda Batista, mas não conhecia nada da música internacional. Na boate comecei a ouvir jazz, blues e, assim, apurei o meu gosto musical.
Ele lembra que a vida de nordestino em São Paulo não era fácil e que passou um ano economizando para comprar a primeira radiola, em 1963.
Deixava de comprar muita coisa para adquirir discos, mas agora o meu salário não permite comprar mais CDs, são muito caros, e CD pirata acho absurdo?, lamenta Paulo.
Até hoje, Paulo Lourenço tem vitrola para tocar os discos e ainda consegue comprar as agulhas em Arapiraca. Para ele, não existe nada melhor que Elis Regina tem a coleção inteira. ?Elis é única, é uma explosão, uma emoção. Elis foi amorà primeira vista?, conta Paulo, com todo respeito à dona Antônia. (N.L.)

No Bar do Paulo, além das preciosidades dos vinis, a dona Antônia, esposa de Paulo, é outra relíquia.
Nestes 34 anos, a bisteca de porco, com tempero simples, servida com macaxeira e salada, é a marca registrada
do bar.

 


Quem chega lá já tem na ponta da língua os pedidos: cerveja gelada e a bisteca de dona Antônia, que tamb
é m prepara um galetinho assado polvilhado com queijo para ninguém botar defeito.
Dona Antônia fica sempre nos bastidores da cozinha, horas e horas, preparando as bistecas para o nosso
deleite. Com um largo sorriso, ela diz que não tem segredo, pois o temperoé caseiro, mas, cá entre nós, a bisteca
de porco de dona Antônia é única; sem dúvida, ela tem a mão certeira no tempero. (N.L.)

Texto e fotos: Nide Lins
Postado em: 27/01/08

 

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