Cultura Viva

 

O ser humano criou com o passar do tempo, diversas formas de preservar sua história, seus costumes e difundí-los para a posteridade. Museus, bibliotecas e outras formas de acesso ao passado são utilizados com afinco apenas por uma parcela diminuta da sociedade, seja por falta de conhecimento dessas instituições, seja pelo total desinteresse, ou simplesmente, pela sua inexistência em muitas comunidades, que geralmente são humildes e não têm condições de construir prédios para abrigar esses conhecimentos. Nestas comunidades a cultura popular tem fundamental importância pois é através do convívio com os mais velhos que as gerações têm contato com a culinária, artesanato, música e demais costumes de seus antepassados. Assim surgiram e sobreviveram, por exemplo, os nossos folguedos e danças populares que hoje passam por uma enorme crise, pois as novas gerações estão sendo bombardeadas por informações culturais de diversas partes do mundo, dificultando o olhar para aquilo que está ao seu lado.

No início de setembro, o Secretário Executivo de Cultura, Ediberto Ticianeli, lançou um programa de apoio aos mestres de folclore, onde estes receberiam, de acordo com inscrições e variados critérios de seleção, uma bolsa como forma de apoio para que estes mestres passem seus conhecimentos aos mais novos de suas comunidades. Uma idéia louvável, talvez.

De acordo com o Secretário, a idéia é que os grupos folclóricos se voltem mais para sua comunidade, em detrimento do que acontece do “lado de fora”. Ora, como todos sabem, “Santo de casa, não faz milagre”, ainda mais num mundo em constante globalização. O que me parece, de acordo com o que ouvi do Secretário, é que existe uma vergonha sentida por diversas instituições, inclusive a governametal, da maneira com que nossos mestres se apresentam e até falam. Mas seria esse o pensamento da sociedade como um todo? Não seria o caso de se pensar em melhorar o acesso dessas pessoas à saude e educação, do que escondê-los em seus barracões e terreiros, com o pretexto de que os mestres precisam passar o que sabem para sua comunidade, escondendo, talvez, de grande parte da população, suas reais condições? Até porque, não será infelizmente, ao meu ver, os ensinamentos populares que impedirão que os dentes dos mestres caiam por maus tratos ou que as vestes dos grupos não se deteriorem e continuem sendo usadas nas apresentações.

Os grupos têm de se tornar mais acessíveis a quem não os conhece, pois só assim, pessoas com algum poder na opinião pública poderão valorizar o que é feito com tanto amor e dificuldade. O exemplo mais recente disso foi no início dos anos 90 quando a juventude pernambucana e depois brasileira, começou a conhecer e valorizar a cultura popular depois que Chico Science & Nação Zumbi utilizou ritmos como o maracatu em suas músicas.

Temos, em Alagoas, os nossos maiores mestres de cultura popular muito bem vivos e ativos, à espera de merecidas homenagens e dispostos a participar delas não só através de fotos ou relatos, mas de corpo presente e "vivente". Nelson da Rabeca, Verdelinho, Benon, Dona Hilda, Venâncio, Edgar dos Oito Baixos, Vavá, Zé Cícero (dos pífanos), Chau do Pife, Tororó do Rojão, João do Pife, Mestre Pitiguari, só para citar alguns, estão em plena atividade produzindo suas músicas, difundindo nossa cultura. Temos tantos artistas e grupos que de alguma forma se espelham nesses senhores e senhoras e que poderiam participar mais ativamente de suas vidas: Eliezer Setton, Junior Almeida, Dr. Charada, Poeira, Xique Baratinho, Almir Medeiros, Ôxe, Máclein, Dona Maria, MAD, Wado, Basílio Sé, Deyves, Altair Pereira entre tantos outros.
Porquê, então, tentar esconder essar popular cultura nas vielas e barracos da periferia alagoana? Nem sempre o mais bonito é o essencial para um povo, seja ele local ou turista.

Keyler Simões
Jornalista e Produtor Cultural


faleconosco@tudoalagoas.com.br

 

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