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RELATO SOBRE
A PESQUISA NA MÚSICA DE TRADIÇÃO ORAL DO NORDESTE,
REALIZADA PELO MÚSICO, CANTOR E COMPOSITOR NALDINHO

Por
ter nascido numa região do Brasil onde o baião, o xote,
a ciranda, o coco e tantos outros ritmos fazem parte do cotidiano do
povo, quis saber mais sobre a música de tradição
nordestina.
Na minha infância ouvia estes sons na barbearia do Mestre Nelson Mateus,
que nos intervalos dos cortes de cabelos tocava acordeão e reunia os
vizinhos para audições.
Em 1995, conheci o Bumba-meu-boi maranhense, com seus sotaques (Matraca, Zabumba
e Orquestra) desde então tenho visitado comunidades onde a música
se manifesta em sua forma mais pura.
A partir dessa sensibilazação musical nasce a pesquisa sobre
música de tradição oral do Nordeste, que tem como fruto
o CD RAÍZES. Foram dez anos de visitas as comunidades nordestinas onde
são vivenciados e preservados os ritmos que deram base a música
produzida no Nordeste e conseqüentemente no Brasil.
Na Bahia registrei o ritmo Barra-Vento, utilizado nas casas de cultos africanos,
essa célula também é executada em outros Estados do Nordeste
entre eles destacamos Alagoas e Paraíba.
Em Sergipe na cidade Japaratuba, conheci os Mestres Cirico (hoje já falecido)
e Batinga que me apresentaram o Cacumbi ou Catumbi, sua dança e seu
canto é uma forma de homenagear os Santos Negros (S. Benedito e N. Sra.
Rosário). Dançado por homens, tendo a participação
feminina na presença da rainha, o Cacumbi dramatiza a luta entre os
Reinados africanos, Congo e Bamba.
Foi em Alagoas que conheci uma das mais belas formas de dançar o Coco
de roda, conta o Mestre Verdilinho que o “trupé” (dança)
nasceu nas tapagens das casas de taipa, homens e mulheres pisoteavam o barro
em roda e ao centro os emboladores (como são chamados os cantadores
de coco) improvisavam versos que eram respondidos pelos participantes da roda.
Seguindo esse caminho musical fui a Pernambuco vislumbrar os Maracatus, são
dois o Rural (Maracatu de Baque Solto) e o Urbano (Maracatu de Baque Virado).
Nas duas variações a influência indígena e africana é explícita.
O Maracatu Rural traduz com beleza a vida dos homens que vivem nos canaviais.
O Maracatu Nação, como também é denominado o da
Zona Urbana, concentram nos Alfaias (tambores), sua fortaleza rítmica
e em sua performance a religiosidade africana.
Na cidade de nome Conde, localizada na Paraíba, existe uma forma de
Coco chamada Coco da Praia ou Coco Praieiro, dançada por trabalhadores
da roça e da pesca em seus momentos de lazer, a Mestra Lenita e seus
familiares mantêm viva a roda, usam instrumentos como a zabumba e o ganzá,
utilizando células rítmicas oriundas da música africana
e indígena.
Em todo o Nordeste brasileiro encontramos o ritmo Coco, várias histórias
são contadas para justificar o nome dado ao mesmo. Contam os Mestres
que em áreas onde existem essas palmeiras denominadas coqueiros, macaibeiras,
entre outras que têm como fruto o coco, os trabalhadores faziam a colheita
cantando, esse canto de trabalho tem influenciado diversos compositores da
era contemporânea, podemos citar Alceu Valença, Teca Calazans
e Chico César.
Encontrei o Coco de Zambê no Rio Grande do Norte, no povoado Cabeçeiras
perto da famosa praia de Pipa. O tambor que da origem ao nome do ritmo mede
aproximadamente um metro e meio de altura, é confeccionado pelo Mestre
Geraldo Cosmos que junto com sua família dançam durante as noites
de brincadeiras. Sua dança tem elementos da capoeira, sendo utilizados
de forma livre.
Em Juazeiro do Norte cidade cearense, existe o Maneiro-Pau, preservado pelos
Mestres Nena e Miguel. Os brincantes seguram cacetes feitos de pau-d’arco,
que batidos dão a pulsação rítmica, ao centro improvisadores
executam pandeiros utilizando células do coco de embolada e da capoeira
cantam versos e o grupo responde maneiro pau, maneiro pau. Contam os Mestres
que com esses cacetes eram travadas verdadeiras lutas e o participante que
se sentia enfraquecido gritava: Manere o pau. Finalizando a luta.
Em Parnaíba cidade praiana do Piauí, conheci o Mestre Batista
(71 anos) saudoso cantava e contava as histórias dos mares. Faleceu
em 2002 com o desejo de reativar a sua Marujada.
A Marujada é encenada em todo o Brasil, principalmente no Nordeste.
Relata as lutas e conquistas dos ibéricos navegantes. De várias
denominações como Nau Catarineta e Chegança, é uma
dança praticada em sua maioria por homens, usando farda de marinheiro.
Navegando Mouros e Cristãos, ao chegarem em terra enfrentam-se, no final
do combate, morre o Rei Mouro convertendo-se ao cristianismo e os Cristãos
são os vencedores da batalha.
Na primeira etapa da pesquisa foram realizadas visitas em todos os Estados
do Nordeste. Dialogando com Mestres que guardam em suas memórias uma
riqueza musical e através de seus familiares e vizinhos protegem essa
forma de se expressar através da música, da dança e histórias
contadas ao longo de suas vidas.
Na segunda etapa o SESC Alagoas, através do Projeto Memória Musical,
registrou em CD as canções resultado dessa viagem musical, que
denominamos de Raízes, um disco onde foram utilizados instrumentos percussivos
originais e o canto traduzindo a pureza da tradição oral. Sendo
o terceiro Cd gravado da coleção, depois do Caraguejo Danado
de Nelson da Rabeca e Pastoril Alagoano pesquisa de Carmem Omena, o CD Raízes
vem contribuir com o processo de educação do povo brasileiro
através da música.
Naldinho
19/09/06
Postado
em 14/03/07
faleconosco@tudoalagoas.com.br
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