Marcius Campelllo – o baterista incansável!


Foto: Jean-Charles

 

Chegar aos sessenta anos de idade já não é um grande feito há muito tempo, mas chegar a essa idade em plena forma, produzindo arte com pleno vigor, é para poucos. Neste seleto grupo está, aos 61 anos de idade o alagoano, natural de Maceió, Marcius Campello, baterista que viajou o Brasil e o mundo, dedicando 47 anos de sua vida a esse instrumento com quem tem uma relação de extrema cumplicidade.
Como um dos maiores músicos em atividade no Estado, Marcius Campello é reconhecidamente um dos mais queridos e atuantes músicos alagoanos, tendo uma carreira como poucos, influenciada por seu pai, que era artista e um dos fundadores da Rádio Difusora de Alagoas, mas Marcius tinha como sonho, fazer carreira na Aeronáutica, e como ele diz: “Talvez, hoje, eu fosse um Brigadeiro...” Com 13 para 14 anos de idade começou a tocar bateria em bandas da escola, até que foi estudar no Colégio Diocesano, de Garanhuns. “Eu era, o que se pode chamar de, um ‘garoto-problema’, e meu pai me mandou para aquele colégio-modelo, por dois anos, onde aprendi muito”. Lá, ele conheceu o professor Julião Marques, a quem é agradecido por tê-lo apresentado à música de forma profissional. Marcius apaixonou-se pelo instrumento à primeira audição, mas tocava mais por brincadeira, pois pensava na Aeronáutica. E foi Julião que lhe mostrou o caminho.
Quando foi para o Rio de Janeiro, com 17 ou 18 anos, as bandas de rock já estavam estourando pelo mundo e em plena efervescência da Bossa Nova, surgiu a oportunidade de formar uma banda, The Fellows, em plena ditadura, com um quinteto: bateria, baixo, duas guitarras e um piano. “Tocávamos de tudo e por isso éramos muito solicitados... chegávamos a fazer quatro shows numa noite. Isso durou até 66. Em 67, com um outro grupo, participávamos de muitos programas de TV. Nessa época, conheci grande parte do pessoal da Jovem Guarda, dentre eles, o Almir, Ex-Fevers, que é um grande amigo particular, com quem mantenho contato até hoje”, lembra Campello. Foi um período rico para a música brasileira, pois acontecia os grandes festivais, como os da Record na década de 60 e os da Globo, na década de 70 e 80. No Rio, estudou música na Escola Villa-Lobos, mas formou-se em Edificações.

Depois de quase 30 anos fora de Alagoas, Marcius retornou em definitivo em 1990, pois a saudade foi mais forte. Ao retornar, Marcius deparou-se com um cenário musical bastante frutífero, com muitos talentos, mas com uma cena dispersa. Marcius fala daquele momento com alegria: “Foi quando fui apresentado aos meninos da banda Windows e me integrei. Daí fizemos parte de uma leva importante de grupos locais como: Living in the Shit, Avoid, 70Th Bligth e Stone Garden, que tinham as suas músicas executadas nas rádios de Maceió, como a Rádio Cidade e Maceió FM. Agradeço muito a pessoas como Tadeu Brêda, Arla Coqueiro e Jairo de Andrade pelos espaços que nos abriram. Foi uma época muito boa, porque a melhor forma de fazer nossa música chegar ao público, é através do rádio. Tínhamos um retorno imediato do que o público achava da gente. Onde a gente tocava, o local enchia, porque o rádio divulgava. No começo, o Eduardo Pompeu fazia só guitarra, mas assumiu também o vocal com a saída do antigo vocalista, JC. Nosso único pecado foi não termos lançado um CD, pois já estava gravado, graças ao Paulo Bergo, (baixista da Windows que tinha um estúdio)”. Mas com o tempo, parece que o cansaço bateu nos músicos e a banda se desfez, ressurgindo logo mais pelas mãos do próprio Marcius.
Marcius interage com músicos de todas as gerações. É professor de bateria (ou orientador, como ele prefere ser chamado) e tem ex-alunos espalhados pelo Brasil e o mundo, como Michel, que está em São Paulo com a banda Ôxe, Nailton, que está na Holanda e Carlos Ezequiel, que foi para o EUA estudar, e hoje está em São Paulo.
Depois de ter participado da banda Jazzbrasilis, Marcius está há dois anos com o grupo Power Jazz, com Geraldo Benson, na guitarra, André no teclado, Van Silva no contrabaixo, e participação especial de Eduardo Macedo no saxofone, que se apresenta além de eventos em geral, aos sábados no Restaurante Trilha do Mar, em Garça Torta.

Campello é um grande defensor da música bem tocada e faz a diferenciação de músico e “tocador”, segundo ele: “O tocador é aquele que não sabe criar, só reproduz o que já existe. Ao contrário do músico, que tem a capacidade de criação artística. Independente da formação. Um músico como Chau do Pife, não tem formação musical, mas é um músico de primeira, porque cria, maravilhosamente”. Escreveu por quase um ano para a revista Batera, de circulação nacional. Está voltando a escrever este ano, para a revista, sobre a musicalidade popular alagoana. Recentemente comandou um programa de rádio, semanal, na Rádio Mar Azul (comunitária), que ia ao ar às sextas-feiras e ele privilegiava a música alagoana, como o próprio nome do programa sugeria: Alagoando.
Esse ano, Marcius gravará seu primeiro CD, que reunirá diversos músicos que fizeram parte de sua história, e com a participação de Julião Marques: “Quero gravar com Julião a mesma música que toquei pela primeira vez em público, com ele”. Marcius Campello fala o que pensa, e não desiste frente às dificuldades. Há dois anos, passou por um momento de problema de saúde que o deixou numa cadeira de rodas. Hoje, plenamente recuperado, está na ativa, e aos 61 anos de idade, chamado de “dinossauro”, define a bateria e a si mesmo da seguinte forma: “Eu sou uma pessoa inquieta, ao extremo... não consigo ficar parado. A bateria é um instrumento maravilhoso e não uma máquina de fazer zoada. Você tem que saber fazer música com ela. Sou um eterno aprendiz da bateria. É um instrumento que tem de ser estudado como outro qualquer. Um bom baterista tem que ter talento, gostar e acreditar no que faz ,e ter humildade.”

Postado em 13/03/07


 

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