VIDA DE ARTISTA – COMO NA COZINHA DE CASA

Quando você, que mora em Maceió, liga o rádio fm o que ouve? Música, muita música, comerciais... as mesmas músicas... os mesmos comerciais? É chato, até medíocre como o rádio fm em Maceió é tão previsível e tão igual. Pelo menos, aos sábados por uma hora, das 17 às 18h, isso muda. Há mais de seis anos a Rádio Educativa FM (que faz parte do Instituto Zumbi dos Palmares, junto com a Rádio Difusora) apostou numa proposta de programa onde o artista pode expor suas idéias, além de seu trabalho. A princípio eram só músicos os entrevistados, primeiro por Graça Tenório e em seguida por Máclein e Ricardo Mota, até que este passou a bola para a Jornalista, cantora etc... Gal Monteiro, que assumiu a apresentação do programa em outubro de 1999. Ah, o programa é o Vida de Artista, que no final desta matéria você vai entender como o nome é propício.
Até meados de 2000 o Vida de Artista era gravado, só então, com Gal Monteiro ele começou a ser ao vivo. “No início, o programa foi concebido para músicos, por ser rádio fm... tem o áudio etc..., mas quando o assumi, eu já conhecia muita gente desse universo artístico, e vi que não tinha porquê não ampliar o programa para outras áreas, e por ser uma fm eu sempre pedia, quando não era um músico, o entrevistado, que ele escolhesse uma música de compositor alagoano para tocarmos... foi assim que começou”, destaca Gal.
Segundo Gal, com o tempo ela percebeu que podia e até devia, fazer mais de uma entrevista por programa, graças à demanda, pois já eram muitos os artistas a procurá-la para participar do “Vida”, e havia um desejo dela em mudar o sistema “comportado”, que até então imperava. ”Antigamente, o estúdio da FM era um bem pequeno, mal tinha espaço
para operador da mesa de som e para o
locutor. Mas, mesmo assim, resolvi trazer
num mesmo dia, os grupos Vestindo a Carapuça e Luz de Candeeiro, o que totalizava quase 13 pessoas num espaço aproximado de 2 x 3 m... e foi super-divertido, pois os grupos gostaram da idéia e até interagiram durante o programa”, disse Gal.
A partir daí, num estúdio bem maior (foto abaixo), onde várias pessoas podem participar com conforto, o programa Vida de Artista passou a ser também o ponto de encontro de artistas. Cantores, poetas, escritores, artistas plásticos, atores ... começaram a se encontrar no estúdio e a trocar convites para shows, exposições, peças, além de livros....Por isso, segundo Gal Monteiro:” O Vida de Artista, como eu digo, é como tomar café na cozinha de casa, pois quem vem aqui, e tem medo de falar no rádio, fica bem à vontade”.

O público
Normalmente, o público ouvinte da Rádio Educativa FM, de Maceió, é um público teoricamente mais esclarecido e de gosto musical exigente, mas o ouvinte do “Vida” é mais abrangente. Com a mudança do programa para o “Ao vivo”, Gal pôde perceber a que tipo de ouvinte ela falava, como ele relata: “Uma vez um cara, meio embriagado, ligou para o programa e entrou no ar. Quando falei com ele descobri que falava de um bar, no Benedito Bentes (maior conjunto residencial, na periferia de Maceió), e já entrou no ar dizendo ‘Gal Monteiro!!! Beleza? Fala aí galera!!! (e aí, umas pessoas gritavam: “Êh!!!!) Não perco um programa seu... ‘ Eu me segurei para não ri, pois era hilário aquele cara falando, bêbado, e ao mesmo tempo, educado comigo, e ainda mais por ser um bêbado com bom gosto musical”.
“ Uma outra vez, num programa especial dos Dias dos Namorados, conseguimos vários brindes para sortear, como fazemos em datas especiais, e li um texto do Arthur da Távola, chamado ”Ter ou não ter Namorado”, muito bonito, que fez a todos no estúdio se emocionarem. Ao chegar em casa, uma outra amiga me liga, bêbada, dizendo que eu era f..., porque com aquele texto eu tinha feito uma outra amiga nossa que estava com ela naquele momento, também embriagada, a reatar o namoro com um outro amigo meu. Logo depois, me liga o próprio para me agradecer. Essa interação é muito legal, como as ligações do Aldo, da Banca Zumbi, lá no centro que é ouvinte cativo do programa. Quando eu não posso, por algum motivo, fazer ao vivo, eu gravo, mas falo durante a gravação ao ouvinte avisando. É uma questão de respeito com o nosso público”.


Os entrevistados
Pelo Vida de Artista já foram feitas, segundo as contas parciais de Gal, cerca de 600 entrevistas. Dentre elas estão: Hermeto Pascoal, Cláudio Zolli, Máclein, Junior Almeida, Basílio Sé, Leureni, Ricardo Mota, Wilma Miranda, Grupo Caçuá, Vestindo a Carapuça, Arlindo Monteiro, Allan Bastos, Poeira Nordestina, banda Dona Maria, Pedro Paulo Rangel, Joana, Cristina Pereira, Siba, e grupos da França, Argentina, República Tcheca. “Além do MPB 4, que não pôde ir ao estúdio e nós nos deslocamos até o Teatro Deodoro e os entrevistamos de lá, do camarim deles., lembra Gal.
As maiores qualidades do programa Vida de Artista estão no carisma e conhecimento artístico de Gal Monteiro, que faz seu trabalho no programa de forma voluntária, já que não recebe nada por isso; na liberdade que a direção da rádio dá e o principal, segundo Gal: ” Antes de tudo é o número de talentos que temos em Alagoas. Antes, eu ligava para convidar as pessoas. Hoje em dia, a partir da quarta-feira, meu telefone não pára.. de gente me ligando para ir ao programa. E tem também, a espontaneidade que os ouvintes percebem os esforços em se pôr no ar um programa desse tipo.... pois não tenho nenhum laço comercial com o programa. Faço por que gosto e me sinto bem fazendo. Outro ponto é o fato de tocarmos CDs de mais de 50 artistas alagoanos... só não tocamos CDs não-oficiais, por que não fica bem, uma rádio pública aderir à pirataria”.

Planos
Nossa idéia é a de fazermos o programa, transmitido do Espaço Cultural Linda Mascarenhas, que é aqui do lado da rádio, com a platéia formada de estudantes do CEAGB (maior complexo educacional de Maceió), jornalistas, produtores e formadores de opinião em geral. Até tivemos uma experiência bem sucedida nesse sentido quando em 2003 fizemos um programa especial de Natal com 5 ou 6 coros. Enquanto um coral se apresentava, os outros formavam a platéia. Foi muito legal e a direção gostou da idéia.
O Vida de Artista é assim, parece descompromissado, mas tem um grande compromisso com a arte alagoana. Por pertencer a uma rádio do Governo estadual, poderia ser muito sério, mas é alegre, democrático e aberto a novas experiências e propostas, como qualquer artista deve ser: comprometido com sua arte, sério no que faz, alegre em seu resultado e sempre bem disposto a viver novas sensações.

“Me sinto muito à vontade no programa porque a Gal faz isso com a gente... O importante no Vida de Artista é a qualificação do público, muito preocupado e voltado para a arte. É um público muito crítico... depois que eu vou lá (no programa) tem sempre alguém que me faz um comentário a respeito”.
Jurandir “Bozo” (músico – banda Poeira Nordestina)

É como se o artista estivesse na copa de casa, pois fica muito à vontade. A abertura que a Gal nos dá, é importante para expormos nossas opiniões e divulgarmos nosso trabalho, num espaço aberto à discussões com uma audiência qualificada. Infelizmente, a rádio ainda não dá condições de abranger o alcance do programa por limitações técnicas, quanto a transmissão ... à potência de seu transmissor... e tem o fato do dia e horário que poderiam ser outros ... senão, o sucesso do programa seria ainda maior”.
Basílio Sé (Músico e compositor)

“Acho importante existir esse programa, pois dá espaço para o artista apresentar o que está produzindo. Sempre pode ser melhor, mas depende mais da rádio do que do programa. Mas é um progrma fundamental para divulgar a nossa música, além de ser único no radio de Alagoas que faz isso”.
Allan Bastos (Músico)

faleconosco@tudoalagoas.com.br

 

MAIS CULTURA