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Feira
popular de Penedo -
Um patrimônio de Alagoas

A feira de Penedo
Muitos
locais por quais passamos no nosso dia-dia acabam se tornando tão
comuns a nós mesmos que não prestamos atenção à sua
importância para nossa cidade e para nossa história. As
feiras, por exemplo. Qual cidade não tem ao menos uma feira
tradicional, seja na capital ou interior? Será que damos a lugares
como esses sua devida importância? Quantas negociações
foram e ainda são feitas numa feira? Quantas pessoas se encontram
e vivem de negócios fechados ali? Penedo é uma cidade
situada às margens do Rio São Francisco, em Alagoas,
e possui um feira popular que tem muita história, localizada
numa área cercada por prédios históricos, como
o prédio onde fica situado o Teatro Sete de Setembro. Com o
passar do tempo criou-se praticamente uma simbiose entre a feira e
essa riqueza patrimonial. A Feira de Penedo vem sendo estudada através
de um projeto desenvolvido pela arquiteta Ariana Moraes com colboração
da também arquiteta Adriana Guimarães, viabilizado por
meio de uma parceria entre o Programa Monumenta, UNESCO e a 17ª Superintendência
do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional).
Ariana
Moraes
Tudoalagoas - De onde veio a idéia de realizar uma
pesquisa sobre a feira de Penedo e porque ela?
Ariana - A Feira tem relevância enquanto parte significativa da cidade
do Penedo devido a sua pertinência histórica como entreposto comercial.
O Penedo desde seu povoamento pelos portugueses em 1535, tinha uma localização
estratégica por conta de estar situada na entrada do Rio São
Francisco, por assim dizer. Então, na época, era esse o percurso
que se tomava para adentrar à capitania da Bahia. O transporte era muito
intenso e diverso, desde escravos a pau-brasil. Mas a pesquisa da Feira em
si ocorreu dada à necessidade de se analisar as relações
imaterias produzidas no local. Explicando melhor, parte da Feira fica situada
dentro do polígono de tombamento federal da cidade, e mais especificamente
envolve o centro histórico e duas edificações que passarão
por restaurações: o Mercado Público Municipal e o Pavilhão
da Farinha. Estudar os aspectos que ocorrem dentro desse complexo auxiliará a
compreensão das questões sociais e econômicas realizadas
ali identificando o que deve ser preservado após a restauração
dos edifícios, já que esta poderá interferir consideravelmente
na continuidade das práticas e atividades que a abrigam. O Programa
Monumenta em parceria com a UNESCO e com a participação efetiva
da 17ª Superintendência do IPHAN – Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional , que atua na cidade, preocupa-se
em dar a devida atenção ao patrimônio material e imaterial
local e na manutenção de suas inter-relações.
Tudoalagoas
- No que consiste essa pesquisa? Que aspectos são levantados?
Ariana - A pesquisa procura abordar os aspectos físicos, históricos,
econômicos e sociais. Dando uma visão mais ampla de todos os agentes
envolvidos. Dessa forma podemos levantar uma análise concisa que respalde
as diretrizes que poderão ser tomadas em relação ao bem
imaterial, as expressões espontâneas e populares da comunidade,
com o bem material edificado que lá já se encontra e precisa
ser protegido e valorizado.
Tudoalagoas - O que é negociado
na feira e com que freqüência ela acontece?
Ariana - A Feira é uma “babel”. Tem de tudo um pouco. Eu
diria que ela representa acima de tudo a riqueza do cotidiano e imaginário
caricaturado que trazemos da infância. Ficou pra mim mais do que comprovado,
que se pode encontrar de tudo por lá. Desde genêros alimentícios
que comumente são vendidos em mercadinhos e supermercados até vestidos
de noiva. E como o próprio significado do nome feira, ela em essência
acontece todo dia, oscilando um pouco no tamanho e fluxo de clientes durante
a semana e fim de semana. Trazendo visitantes e feirantes de várias
outras cidades próximas.
Tudoalagoas - Como está sendo feito esse registro?
Ariana - Não está, de fato, sendo feito um registro. A consultoria é um
apoio local do Programa Monumenta em parceria com a UNESCO e supervisionada
pelo 17ª Superintendência do IPHAN. É um apoio para auxiliar
nos estudos referentes a essas questões do patrimônio material
e imaterial especificamente na cidade do Penedo. O processo para o registro
de um bem imaterial segue outros procedimentos e um percurso bem mais longo
no período de pesquisa.
Tudoalagoas - A Feira está passando por qual
processo por parte do IPHAN/Unesco?
Ariana - No momento o IPHAN e a UNESCO estão avaliando o resultado da
pesquisa que abrange a catalogação do patrimônio cultural
imaterial decorrente das atividades que se configuram no mercado e feira, e
análise física dentro do sítio tombado através
de coleta, crítica, apuração, apresentação,
análise de dados e elaboração de relatórios resultando
em diagnóstico e caracterização do objeto de análise
(fichas fotográficas, fichas de cadastro dos feirantes, zoneamento da
feira, identificação dos produtos – zoneamento e aplicação
de questionários por zona de amostragem).

A feira de Penedo mantém uma "simbiose" com
prédios históricos e com bastante diversificação
Tudoalagoas - O que se pretende com esse
levantamento? Uma relocação ou reestruturação
da feira? De que forma a Prefeitura participa desse processo?
Ariana - Esse levantamento vai servir como base para as diretrizes que os orgãos
como a Prefeitura, por exemplo, irão direcionar a forma de atuar com
a feira, feirantes e intervenções restaurativas. Certos fatores
identificados como problemáticos deverão, certamente, ser resolvidos.
Questões de higiene, limpeza e ordenação pedem uma atenção
especial.
Tudoalagoas - Quais as peculiaridades
encontradas na feira de Penedo?
Ariana - Eu ouso dizer que as pessoas são as peculiaridades. Desde o
consumidor, carregador, motorista ao feirante. Cada um traz um universo particular
de sua história de vida, uma maneira própria de negociar e expor
seus produtos. São figuras únicas e divertidíssimas. Se
você colocar de lado a “muvuca” que acontece na feira: o
tumulto, empurra-empurra, o calor, a mistura de odores(nem sempre muito agradáveis)
e o cansaço da caminhada; e parar para olhar, escutar e se deixar envolver
por essas pessoas simples e ricas ao mesmo tempo, será agraciado com
momentos de diversão ímpar e aprendizado de vida.
Tudoalagoas - Vocês devem ter encontrado,
com essa pesquisa, coisas bem interessantes sobre Penedo...
Ariana - Ainda estamos encontrando...A pesquisa histórica (2ª.
Etapa do trabalho) ainda tem um tempinho para ser finalizada. Um tempo até bem
apertado dada a riqueza que Penedo contém de referenciais históricos
e um pouco de dificuldade para encontrá-los. Mas eu conto com a colaboração
de uma grande amiga e colega de profissão Adriana Guimarães para
cumprirmos toda a pesquisa, além do suporte de toda a equipe do IPHAN
para alcançarmos o objetivo. Os achados que mais nos impressionaram
partiram das riquezas culturais que aconteciam na cidade: aulas de músicas,
canto, francês e latim. Penedo viveu um apogeu cultural muito grande.
A diversidade também era fascinante se você parar pra pensar que
na época do domínio holandês, se encontravam na cidade
além dos portugueses e nativos, os malês com sua cultura muçulmana.
Vieram também junto com os holandeses, vários judeus. É um
grande exercício tentar visualizar como a comunidade lidava com tantas
manifestações diferentes. Após essa época do período
colonial, já no século XX, personalidades ilustres eram constantes
visitas ao Penedo: Oswaldo Cruz, Jorge Amado, entre vários outros nomes.
Isso sem mencionar os próprios filhos da terra.

Adriana Guimarães e Ariana Moraes
Tudoalagoas - De que forma o Rio São Francisco influencia
na formação da Feira?
Ariana - A população da cidade tem uma relação
muito intensa com o Rio. A Feira, de fato, surgiu por conta de um comerciante
que transitava pelo Rio ter pedido autorização para fazer o comércio
de alguns produtos na beira do cais, isso no início do século
XIX. O mais triste foi descobrir que desde aquela época há registros
de maus tratos ao Rio São Francisco. A associação entre
a estagnação do crescimento da cidade e o estado de degradação
do Rio não pode ser evitada. Já está afetando o percurso
de consumidores de Sergipe que usam a balsa como meio de transporte para ir à Feira
e comércio do Penedo, por conta dos inúmeros bancos de areia
que vêm surgindo. Vai chegar a ponto de não poder mais ser feito
dessa forma e aí passará a ser só mais um registro histórico. É uma
pena.
Tudoalagoas - Quais os próximos passos
da pesquisa?
Ariana - Finalização da pesquisa historiográfica sobre
a vocação comercial da cidade, a partir da sua origem até os
dias atuais, elaboração de um levantamento sobre a situação
da paisagem urbana no sítio com base no estudo prévio realizado
no âmbito do Programa Monumenta e formatação do segundo
volume da cartilha de educação patrimonial tendo como público
alvo os feirantes e seus freqüentadores direcionando o esclarecimento
sobre patrimônio imaterial.
Fotos:
Feira - Ariana Moares / Adriana e Ariana - Junior Almeida / Ariana
Moares -Keyler Simões
Postado em: 04/06/07
faleconosco@tudoalagoas.com.br
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