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Fundação
Municipal de Ação Cultural de Maceió

Há dois anos a frente da Fundação Municipal de Ação
Cultural, Macial Lima ainda está ajeitando a casa, mas já deixando
uma marca de quem não caiu ali de pára-quedas, por se tratar
de um artista e de um gestor público, ou como ele mesmo define: “Mudando
paradigmas, vendo o artista como parceiro e não como um assistido;
empenhados em não só atender demandas e desejos, mas, também,
comprometidas em incidir na modificação destes desejos e
demandas, pondo em questão valores culturais estabelecidos, resgatando
valores éticos e propondo novos valores para o convívio social.
Questiona as políticas culturais, inclusão e desenvolvimento
sustentável como formas de direito social”. Conversamos com
Marcial, que se mostrou seguro e objetivo nas respostas, destacando a importância
de parcerias no mundo cultural de hoje em dia.
Que iniciativa, nos últimos anos, você destacaria
como positivas para a Cultura de Alagoas?
A assinatura do Protocolo de Intenções com o MinC, objetivando
a concretização do Sistema Nacional de Cultura; a concepção
dos projetos Alagoas em Cena e Teatro é o Maior Barato; a atuação
dos órgãos do Sistema “S”; a nomeação
de gestores comprometidos com a questão cultural, com embasamento
teórico, experiência prática e visão técnica
do processo; os esforços para formação dos diversos
fóruns setoriais; as conferências públicas; as realizações
que abriram canais de expressão para nosso espírito carnavalesco...
Como você avalia a participação de Maceió e
Alagoas no Sistema Nacional de Cultura?
Chegamos juntos! O SNC é uma grande sacada. Democratiza, descentraliza,
dá transparência e capilaridade à aplicação
dos recursos públicos. Maceió e Alagoas se fizeram presentes.
São diversos os Pontos de Cultura e sua efetividade, em grande maioria, é elogiável.
Talvez precisemos de mais capacitação, de uma maior sistematização
coletiva, de analisarmos a pertinência de algumas dependências,
de melhor exercermos o senso de união, a visão do coletivo...
o que requer paciência histórica, pedagógica e afetiva.
Por ser uma fundação, a FMAC, teoricamente, tem mais autonomia
e possibilidades do que se fosse uma mera Secretaria, principalmente na
captação de recursos. Esse potencial vem sendo aproveitado?
Estamos inseridos num processo que requer consciência crítica
e persistência, para que as mudanças aconteçam. Aliás,
somos de opinião de que a instituição que não
se autocritica está fadada a desaparecer. A Fundação,
em maior ou menor grau, dependendo da gestão, não escapava
daqueles equívocos conceituais tão comuns aos órgãos
de cultura: atuação sem uma filosofia definida, sem uma diagnose
da situação vigente, sem percepção de prioridades,
destacando-se os momentos de palco, som e luz; em eventos que se iniciam
e se findam em si próprios. Os demais órgãos públicos
e instituições outras, solicitando a ação da
Cultura para abrir e fechar eventos dos quais ele não participou
de sua concepção, julgando a cultura como um apêndice,
como uma ação pública secundária. Os instrumentos
norteadores que encontramos eram frutos da concepção de pessoas
ou segmentos que têm uma grande contribuição a dar,
mas que representam uma pequena parcela da população; fundados
na ideologia da competência, partiam do intuito messiânico
de levar cultura ao povo, como se o povo não tivesse cultura e como
se cultura e povo fossem duas instâncias que se estranham. Eram completamente
desarticulados das políticas gerais de governo. Constituíam-se
em um rol de desejos e intenções, desprovidos de qualquer
agenda estratégica. E mais: construídos sem qualquer envolvimento
motivador da comunidade que, por não ter participado de sua elaboração,
não se sentia comprometida com sua efetividade. O quadro funcional,
via de regra, era formado por pessoas que “amavam a cultura!”,
mas carentes de embasamento teórico no que se concerne à concretização
de políticas públicas. Enfim, confundia-se, como ainda se
confunde, as secretarias de cultura com secretarias de eventos ou de entretenimento
ou com um espaço a ser apropriado para atender interesses particulares.
Diante de tudo isso, achamos essencial a realização das conferências
públicas em busca de parâmetros para ampliação
e adequação dos mecanismos de gestão. Dessa forma,
se a pergunta é se todo potencial do caráter de fundação
está sendo aproveitado, a respostas é: não,
estamos a caminho.
Como se dá o contato da FMAC com os setores produtivos da cultura
e qual a forma mais próxima do ideal para esse contato, em sua opinião?
As conferências foram uma experiência das mais profícuas:
aproximou a FMAC das comunidades e norteou nossas ações.
Somos de opinião, também, que os fóruns, fortalecidos
e mais sistematizados, serão excelentes caminhos. Isso sem deixarmos
de citar os outros modos de associação, a exemplo das ligas.
A única questão é: esses segmentos não
podem representar, somente, os interesses de poucos.
Como você avalia o APL Cultura em Jaraguá?
Jaraguá é um belo desafio, mercê do desgaste a que
foi submetido. Evidenciá-lo como um símbolo é profundamente
interessante para nossa cidade. Por isso, avalio que trazer a idéia
dos arranjos produtivos para o segmento cultural foi supimpa. No entanto,
convém frisar que, num trabalho de pós-graduação,
verificamos que, segundo Paulo Haddad, um processo de desenvolvimento que
pressupõe crescimento econômico e auto-sutentabilidade, dependerá,
fundamentalmente, da capacidade de organização social e política
dos envolvidos no processo. E a consecução dessa capacidade
de organização é, por excelência, endógena,
exigindo que os envolvidos, articuladamente, busquem a autonomia decisória,
a articulação intersetorial, numa crescente percepção
coletiva de pertença. Por assim ser, em termos de APL/Cultura, alguns
fatores dificultam o processo. Entre outros, cito três menos polêmicos:
uma forte tendência de desconsiderar as necessidades coletivas em
função de interesses individuais; o deslocamento de responsabilidade,
no buscar soluções, do contexto individual ou de classe,
para o poder público; a inexistência de articulação
entre os segmentos de produção, distribuição
e acesso. Às vezes, por razões não compreendidas,
iniciativas vitoriosas, como é o caso da parceria da FMAC na gestão
da Oficina SEBRAE, são interrompidas sem um maior aprofundamento
da questão.
Que tipos de parcerias são importantes e quais a FMAC
tem mantido?
Estamos realizando excelentes tratativas com o SESC e com o SESI.
Temos constante diálogo com o SEBRAE e com o APL. Temos parcerias com
o Ministério da Cultura e com a Biblioteca Nacional. Temos atuado
em vários Pontos de Cultura instalados em Maceió. Temos estado
muito próximos de instituições culturais situadas
nos diversos bairros, porquanto paradigmas hegemônicos não
lhes propiciavam visibilidade. Tivemos ações junto com a
SECULT, com o Théo Brandão, com a ASFOPAL e com o MISA. Temos
somado com a luta da Liga dos Bumbas-meu-boi, da União
dos Blocos de Frevo e de algumas escolas de samba.
Qual a avaliação que você faz do carnaval de Maceió?
Não o vejo de forma estanque, e sim dentro de um longo processo.
Antes, tínhamos o carnaval de rua, onde a Prefeitura, por vários
dias, situava bandas de frevo em pontos estratégicos da cidade,
e a população caia na folia. Tínhamos as troças
do Banho de Mar à Fantasia, o carnaval de clube e os blocos carnavalescos
nos bairros. Depois veio a pasteurização, levando o maceioense
de melhor poder aquisitivo - vestindo a mesma roupa, fazendo a mesma coreografia,
cantando a mesma música - seguirem processionais os “santos
de sua devoção”. Os menos favorecidos, o chamado povão,
foram confinados na “pipoca”, espaço falsamente alardeado
como democrático. Nesse processo, até blocos de forte conotação
ideológica, perderam sua originalidade, cederam aos encantos de
um “midas abaianado”, trocando a alegria, a criatividade, pelos
apelos de massa, pela possibilidade de ganho. Os poderes constituídos
foram de uma insipiência de fazer dó. Aí surgem a Seresta
da Pitanguinha, o Pinto da Madrugada, o Jaraguá Folia, onde o folião
passou a se sentir reconhecido, a sentir-se acolhido, numa grande comunhão
festiva. Ressurgem o Vermelho e Preto, o Baile Municipal, o Baile de Máscaras.
As bandas de frevo voltaram a ser valorizadas. Daí, a avaliação
que faço do carnaval em Maceió é que um carnaval em
Maceió é possível.
Por que é tão difícil as escolas de samba se organizaram
previamente para
captar recursos para seus desfiles e por isso se acostumaram
a pressionar
o poder público a financiá-las?
Carece-lhes visão do coletivo, organização e método;
transparência, percepção de
sustentabilidade. Historicamente,
foram semeados interesses que vão além do
samba; foi sedimentado
um oportuno assistencialismo e uma planejada dependência.
Porém,
nas visitas que fiz aos “barracões”, encontramos muita
gente séria, uma
comunidade decente, honesta, disposta a arregaçar
as mangas, a caminho de
assumir seu papel cidadão, consciente de
seu valor, de sua cultura. Se este
segmento se unir em benefício
do interesse coletivo, vendo o poder público
como parceiro e não
como um grande paizão, veremos o samba fazer bonito.
Essa
edição comemorará sete anos do Guia Ensaio. Qual sua
opinião sobre o GE?
Gosto, gosto muito do GE, que vem dando visibilidade ao
movimento cultural
alagoano e despertando a visão crítica. Gosto não
somente dele como, também,
das outras iniciativas desenvolvidas
pelo seu idealizador, sempre presente - e
atento as realizações
culturais alagoanas, registrando-as, evidenciando o
presente
com os olhos em nosso futuro.
Postado
em: 02/07/07
faleconosco@tudoalagoas.com.br
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