Nelson da Rabeca

Para quem já ouviu uma rabeca ser tocada já identificou um som que mais parece um choro. É, um choro mesmo... Mas como nós, meros mortais, a rabeca chora, também, quando está feliz. E isso, felicidade, que não falta ao franzino corpo de Nelson dos Santos, mais conhecido por “Nelson da Rabeca” que provou que pode-se mudar os rumos que o destino, possivelmente, lhe reservara. Do corte da cana, nos canaviais do pequeno povoado de Taquanduba do município de Marechal Deodoro, próximo à Maceió, poucos esperam algo mais da vida. Mas não é o caso de “Seu” Nelson que, com 54 anos de idade decidiu seguir seus instintos, quando viu pela televisão um violino pela primeira vez. Ficou tão encantado que decidiu fazer por conta própria um instrumento daquele, ou parecido. Assim começou o caso de amor de Nelson dos Santos com a rabeca...

A labuta de todo dia debaixo de um sol tipicamente nordestino, quente até dizer basta: era assim que a vida de Nelson dos Santos há quase mais de 20 anos, quando trabalhava em canaviais ajudando o pai no trabalho de corte de cana. Mas, já nessa época, “Seu” Nelson mexia com música, no pouco tempo que tinha de folga, tocando acordeon, em feiras e festas populares, sem que o pai soubesse, porque senão o “côro ardia”. Começou a tocar rabeca aos 58 anos de idade depois de ver um violino pela televisão. Foi construindo até achar o som certo. Depois começou a produzir rabecas para tocar e vendê-las, principalmente, na praia do Francês, em Marechal Deodoro, município vizinho à Maceió. Foi assim que “Seu” Nelson ficou conhecido e conquistou amigos e admiradores. Hoje fica até difícil separar “Seu” Nelson da rabeca. Um é a extensão do outro, numa perfeita sintonia, uma simbiose artístico-cultural, onde um ajuda a divulgar o outro, através da musicalidade transmitida com a pureza própria de quem faz o que gosta, e gosta do que faz. Pureza da gente humilde de Alagoas, que nada mais quer do que ser feliz.

Nelson da Rabeca é um grande exemplo de vida, sempre sorridente e portador de uma simpatia e carisma sem iguais. Aos 78 anos de idade esbanja vitalidade, mesmo depois de tantos problemas de saúde que o deixaram de cama por um bom tempo, mas que serviram para fortalecer seu espírito através da ajuda de amigos, amigos como os que fundaram o movimento Amigos do Nelson que, durante um ano, realizou diversos shows e eventos (com participações ilustres como Hermeto Paschoal e Siba, do Mestre Ambrósio) para arrecadação de fundos para tratamento de Nelson e para a compra e reforma de sua casa. Hoje, “Seu” Nelson está de casa nova. Desde junho de 2000, deixou sua humilde casinha em que morava num povoado a três quilômetros de Marechal. Mora com sua esposa e parceira de palco, “dona” Benedita, e seus filhos, numa casa com 4 quartos, duas salas e outras dependências. Tem até quarto de hóspedes, o que era um grande sonho de Nelson da Rabeca, que sempre quis poder receber seus amigos em casa, com conforto.


Nelson da Rabeca só surgiu para o mundo artístico, quando ficou conhecido pela população de uma forma em geral, há praticamente cinco anos, e com muito talento viajou quase o Brasil inteiro através do Projeto Sonora Brasil, e teve no Sesc um grande parceiro e incentivador. Com 75 anos de idade, quando muitos, infelizmente, já se dão por vencidos, esse senhor, com ares de criança, realizou um sonho comum a todo músico: gravar suas composições e lançá-las em CD. Foi o que aconteceu em 25 de agosto de 2000 quando foi lançado o CD Caranguejo Danado, numa iniciativa do SESC – Alagoas. Foram 24 músicas gravadas ao vivo, no estúdio do próprio SESC, sendo 19 de autoria de Nelson e 5 de “dona” Benedita. A obra musical de Nelson da Rabeca abrange uma diversidade de gêneros musicais distintos, mas todos da cultura rural do Nordeste brasileiro, como o baião, a marcha, o xote etc., entre peças de formas livres. Dominando todos os processos de sua arte musical, do corte da jaqueira, da imbaúba, do mulungu e da gameleira, passando por todas as etapas específicas da construção de cada um de seus instrumentos, até a criação e interpretação de suas próprias composições, "Seu" Nelson trabalha apoiado em um saber secular, representando o ponto de chegada de conhecimentos muito antigos trazidos na bagagem dos colonizadores, diminuindo distâncias entre passado e presente, tradição e atualidade. Sobre o sucesso de seu CD: “Aquela alegria no coração... que me deixa satisfeito do pessoal que me ajuda... Eu sinto uma alegria tão forte, que se eu tiver doente, melhoro na hora. Gosto muito do pessoal que vai me ver e gosta do que a gente mostra.” Em 2003 participou do Programa do Jô, caindo nas graças do apresentador que se encantou com a simpatia e talento de “Seu” Nelson.

“Meu sonho é... eu andava de bicicleta, mas eu tive que fazer uma operação, e não posso mais... mas o meu sonho é ter um carrinho, um carrinho veinho, mesmo, pra eu ir fazer as minhas tocadas... se não puder dirigir peço pra um dos meus amigos ir comigo e minha mulher...” “Eu aprendi rabeca com pessoas como Nelson da Rabeca, e daí vem a minha admiração”. Siba (Ex-Mestre Ambrósio)


Ao lado, Nelson da Rabeca apresentando-se com Hermeto Paschoal no Teatro Deodoro.

Histórias de Nelson da Rabeca

# Quando andou de metrô pela primeira vez, pediu para voltar de carro (táxi), respondendo que O CARRINHO CORRE MUITO, O AR É DIFERENTE E QUE SE SENTIU UM TATU-PEBA.

# Numa apresentação em Salvador, no meio de uma música o zabumbeiro errou, seu Nelson parou e ensinou o zabumbeiro a tocar certo, mas o zabumbeiro errou de novo, e de novo, no meio da música seu Nelson parou, colocou a rabeca no chão e chamou outro zabumbeiro para terminar o show. Este mesmo zabumbeiro na hora de viajar de Maceió, não levou nenhum documento. Na hora que o funcionário do guichê perguntou o numero da identidade foi respondido 102030 e assim até hoje ficou o apelido do zabumbeiro.

# Dona Benedita conta que quando seu Nelson ia para o corte de cana ela pescava piaba para dar de comer aos filhos, e quando olhava para o céu e via um avião sempre falava: só um doido para andar lá em cima. Hoje comenta com felicidade suas viagens de avião.
# Seu Nelson agora está com um grande sonho, que é de comprar um carro, mas quando perguntado se ele sabe dirigir a resposta é imediata. Já dirigi trator e se não puder, meus amigos dirigem para mim. Com as apresentações aparecendo seu Nelson e dona Benedita aprenderam a assinar o nome, pois as pessoas compram cds e pedem autógrafos (ele fica muito feliz quando alguém pede autógrafo). Agora mais ainda, pois está mudando a carteira de identidade. Antes tinha a digital, como ele diz: “antes eu melava o dedo, agora não mais”.
#Seu Nelson tem uma facilidade muito grande de fazer música. Quando terminou a entrevista com a produção do Jô (Tatiana) ele perguntou ao seu Produtor, José Reges, de onde era, e Reges falou que era da produção do Jô. O gordinho...vou fazer uma música para ele. “Seu” Nelson ligou na manhã seguinte e falou que já fez “xote pra Jô”.

# Seu Nelson costuma dizer: “a música dá saúde para quem toca um instrumento”. Deve ser verdade, pois aos 75 anos de idade, é casado com uma mulher 20 anos mais nova, e tem 10
filhos, sendo que o mais novo toca junto com ele e tem 16 anos.
# Seu Nelson, quando jovem, não gostava do cabelo, e certo dia colocou água sanitária para o cabelo cair.
# Seu Nelson tem uma platina na coluna, devido a um problema de saúde. Sempre que viaja, o detector de metais do aeroporto alarma e é necessária uma explicação. Na ultima vez, não alarmou. Ele ficou preocupado no começo, depois relaxou e falou: “Acho que a platina já se misturou com a carne”.
# No dia 02/08/03 no Sesc Vila Mariana seu Nelson deu uma palestra (a sua maneira) sobre rabeca e uma das perguntas foi, qual a afinação que o sr. Usa.. a resposta .. a minha. (seu Nelson toca de ouvido e não conhece nota musical).
# Outra pergunta na palestra foi que cordas que usa na rabeca. “Uso a 2ª,3ª,4ª e 5ª do violão”, mas depois ele confessou que ultimamente trocou a 2ª por cabo de aço de freio de bicicleta.
# No mesmo dia à noite, no show com Antonio Nóbrega e o grupo Carcoarco de Campinas, e comentou que o show dos meninos era bonito, mas se desse um vento no palco, acabava o show, já o dele poderia dar o vento que fosse que ele continuava. (Referindo-se às partituras).

FRASES DE NELSON DA RABECA

“Foi Deus que ensinou tudo que eu sei. Jesus cristo teve dó de mim e hoje a rabeca dar de comer para minha família”.
" Gente do mundo inteiro vai bater lá em casa pra ver o meu toque e comprar minhas rabecas. O som, eu garanto, é limpo e tem volume. E esses músicos importantes querem a rabeca na madeira crua, sem envernizar, para não ficar igual ao modelo da praça".
" ... aquele que toca inté em copo d´água (Hermeto Paschoal) ... são tudo meus amigos. O orgulho que eu tenho é o prazer de tocar e viver arrodeado de amigos de todo jeito..., até doutores"
" Onde que eu ia imaginar que na velhice ia ser chamado para fazer shows, ficar em hotel,
andar de avião?"
O risonho e sensível Nelson da Rabeca só se entristece em um momento: quando lembra que a vida "se esqueceu" de lhe ensinar a ler e escrever. Nelson da Rabeca é o monumento vivo à causa de preservação da cultura alagoana.
Nelson da Rabeca, quando aprendeu a fazer e tocar rabeca, foi com a esposa para praia do francês para tocar e ganhar uns trocados. Certo dia um empresário de Santa Catarina o viu e o convidou para algumas apresentações no seu estabelecimento comercial. No dia de viajar a esposa de Nelson adoeceu e ele não pôde ir... o empresário de Santa Catarina era Beto Carrero.


Lançou em 2005 o CD Pros Amigos e em 2006/2007 teve o lançamento do DVD “Rabequiê - a vida e a obra de Nelson da Rabeca”, um documentário.

 

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