Catolé do
Rocha (PB)
Maceió (AL)
Palmeira
dos Índios (AL)
Quixeramobim
(CE)
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Um vício familiar
Tudo começou quando eu nem era nascida e meu pai, potiguar, junto com alguns de seus dez irmãos, já havia rodado quase todo o Nordeste. A primeira vez que saiu de casa foi aos 18 anos para ser peão de estrada. Quando voltou, dois anos depois, de tão cabeludo e perdido na calça boca-de-sino, a mãe não o reconheceu. Era início dos anos setenta e o Omar que voltava definitivamente não era o mesmo rapaz da roça que havia saído... Hoje em dia a gente chama minha avó, mãe do meu pai, octogenária, de “maria-gasolina”, pois não é que ela não pode ver um parente chegar de carro ao sítio onde mora que vai logo se arrumando e emburacando com a cabeça branca cheia de roteiros? De vez em quando ela nos faz uma surpresa, junto com meu avô, e atravessa os 550 km que separam São José de Mipibu de Maceió, seja de carona com um filho ou de ônibus, numa boa.
Não sei calcular quantos quilômetros já percorri. Sei que hoje, quando saio em viagem nas férias, que é quando posso me demorar mais, não rodo menos de três mil quilômetros. Parece pouco. Tudo bem, daqui desse canto do mundo, Maceió-Alagoas-Nordeste para a maior cidade do país, São Paulo-São Paulo-Sudeste, são 2.415 km. Ou seja, não dá nem pra ir e voltar a Sampa, calculando em linha quase reta e com um único destino. Mas assim é fácil! O difícil, neguinho, é fazer isso em qualquer transporte disponível, em estradas ermas e empoeiradas, ziguezagueando, viajando à noite pra não pagar dormida, ou quando muito dormindo em pousadas que mais parecem pensões ou coisa mais mal afamada, montando roteiros que não são feitos por agências, com pouca grana e sozinha! É como faço a maioria de minhas viagens... Difícil – e arretado – é trocar o ar-condicionado do ônibus regular ou as refeições do avião pelas incertezas do caminho de quem se aventura a andar pelas estradas que levam principalmente aos sertões do Brasil... Sei de uma coisa: viajar vicia. Tanto que quando passo muito tempo sem pôr a mochila nas costas começo a sentir coisas estranhas, fico desconcentrada, ansiosa, preciso matar minha vontade. Daí pra me pegar planejando, mentalizando roteiros, anotando informações, dando telefonemas, pesquisando na Internet é um pulo!
Nada se compara a dar o primeiro passo de uma longa viagem. Os preparativos vão me deixando num estado de tamanha excitação que é rara a noite precedente a uma jornada em que consigo dormir. Também não prego o olho de dia quando estou na estrada pra não perder nem um minuto, nem um metro da paisagem. Se tivesse dormido, não teria visto o momento em que o ônibus em que viajava saiu da pista e invadiu o acostamento, por pouco não batendo em uma árvore, quando o motorista foi atingido no rosto por uma cana-de-açúcar que pendia de um gaiolão, espécie de caminhão cumprido comum no litoral nordestino em época de colheita; ou os quilômetros de plantação de uva sem semente que margeiam a estrada no polígono da maconha, em Pernambuco; ou as curvas sensuais do Velho Chico vistas do alto, a bordo de um avião, como também as iluminadas linhas da planejada Aracaju, também vistas de cima. Aliás, uma das maiores emoções da minha vida foi ver o dia amanhecer sobre o cânion do Rio São Francisco, na divisa entre Delmiro Gouveia (Alagoas) e Paulo Afonso (Bahia), no sertão. Também emocionada vi um ninhal de garças ao lado da pista entre Catolé do Rocha e Brejo do Cruz, na Paraíba, e curiosa ao me deparar com gigantescas piscinas às margens da BR 101, entre Goianinha e Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, para depois descobrir se tratarem de fazendas de camarão (o estado é um dos maiores produtores e exportadores do Brasil). Incrédula, ao lado de montanhas de pedra, no vale dos monólitos, entre Quixeramobim e Quixadá, no Ceará, onde tive a prova definitiva de que o Brasil não conhece o Brasil, ou quem aí já ouviu falar numa Nossa Senhora Rainha do Sertão? Pois descobri um santuário dedicado a ela naquelas paragens. Se você cochilar um só instante nesses caminhos do Brasil, pode perder o maior espetáculo da sua vida! É impossível não se emocionar diante da beleza, não querer continuar na estrada, mas também não se indignar diante das injustiças, não se alegrar ao participar das festas, não sentir saudades das gentes, enfim, não experimentar uma grande mistura de sentimentos ao percorrer nosso país. Desafio qualquer um a não querer voltar... Costumo dizer que meu pai construiu estradas para que eu pudesse percorrê-las hoje. Viajar é minha cachaça e está no meu sangue. Viajar é minha cachaça e está no meu sangue. PS.: Bolsas e mochilas são os presentes que minha sobrinha de cinco anos mais gosta de ganhar. É, parece que o gosto por viajar, além de viciante, é hereditário...
Texto
e fotos: Pia
Queiroz (já se preparando para as próximas férias) Postado em: 13/04/08
faleconosco@tudoalagoas.com.br
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Rodoviária de Caruaru
Quixadá (CE)
Parque dos Dinossauros - Sousa (PB)
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