Por um Turismo Afro-Caeté...

Edson Bezerra

Edson Bezerra, mestrado em Antropologia (sobre a sexualidade da prostituta), professor, pesquisador e Doutor em Sociologia na UFPE e autor do Manifesto Sururu.
Trabalhou no mapeamento sócio-econômico- cultural das 173 associações de pequenos agricultores atrelados a CEAPA (Central Estadual das Associações dos Assentados e dos Pequenos Agricultores de Alagoas).
Edson conversou com a Jornalista Alessandra Vieira (Editora de Cultura de O Jornal) e com o Turismólogo e Produtor Cultural Ernani Viana sobre alagoanidade e turismo em Alagoas. Aqui reproduziremos a entrevista na íntegra.

Tornou-se um lugar comum a fala de que o Alagoano não possui uma estima elevada, tomando, por exemplo, a altivez pernambucana e orgulho baiano, de onde vem a ausência de um narcisismo alagoano? Isto realmente existe?

Em parte sim e em parte não. Depende de onde você está olhando a questão. O alagoano se orgulha de ter as mais belas praias do Brasil, por exemplo. E isto é uma postura narcísica. Então o que você tem que ver é de onde se está olhando. Se você observar, nós temos uma cultura popular forte e poderosa e isso não existiria se no povo não houvesse um sentimento de narcisismo. Todavia a cultura popular alagoana não está no centro das representações culturais alagoanas entende? Somente umas alegorias, o chapéu do guerreiro, o gogó-da-ema entende? É essa uma questão central. Então existe um narcisismo do alagoano sim, mas um tipo de sentimento narcísico que como todo sentimento narcísico, não está atento para as diferenças.

Como isso reflete na atividade turística? Existe alguma relação?

Tem tudo a ver, uma vez que uma das características do turismo é o acento nas diferenças e no que em cada lugar ou região tem a oferecer ao outro que chega. O Outro quer dizer: “O estrangeiro”, o que vem para cá consumir o diferente e a diferença e isto por aqui nós temos em demasia.

Segundo seu ponto de vista, como está se desenvolvendo o processo de construção do Turismo Alagoano?

Através da montagem de um modelo extremamente pobre e perverso e que vem se consolidando com o passar do tempo. O turismo predominante em Alagoas é o turismo de Sol e Mar, um turismo que vem se consolidando em detrimento da proliferação das outras atividades turísticas, tais como o turismo cultural, o turismo ecológico, de camping, etc. Há algum tempo atrás, a Secretaria de Turismo lançou um folder que ainda hoje é atualíssimo ao dividir Alagoas em sete regiões culturais: Maceió, Região das Lagoas, Costa dos Coqueirais, Delta do Velho Chico, Canyons do São Francisco, Costa dos Corais, Região dos Quilombos e finalmente a Região das Tradições Culturais. Quer dizer, das oito, cinco delas está diretamente ligado à natureza, e observe para um detalhe revelador: Maceió está ficcionado da região das lagoas. Ora, Maceió é uma cidade lacustre entende? E quanto às regiões culturais, não existe nenhum planejamento estratégico ligado a um processo de construção de um turismo cultural. Na verdade, o que deveria ser uma fonte de distribuição de renda – porque no turismo existe de fato essa possibilidade – se consolida enquanto uma economia concentradora de renda. Ou seja: o turismo está concentrado em um pequeno espaço, já consolidado, pré-determinado e engessado – As praias de Maceió, Barra de São Miguel, Maragogi, Francês, etc. – aonde se concentram a cadeia produtiva do atual modelo do turismo alagoano. No frigir dos ovos, os belos espaços das praias se transformaram nos Cantos das Sereias, e como todos sabem, os cantos das sereias matam. (risos).
Observe somente um exemplo revelador. Uma agente de viagem me contou que a Secretária de Turismo de Marechal Deodoro pediu para a Secretaria Estadual de Turismo que ao invés de colocar a cidade de Marechal no roteiro das cidades históricas, a colocasse na rota das cidades praieiras, por que senão ela perderia em termos de visitação. Não é um absurdo?


Por que isso acontece? Falta interesse? Quais seriam os outros motivos?

Na verdade, existe no que se refere às particularidades alagoanas, uma profunda invisibilidade das riquezas das Alagoas. Em parte isso é um reflexo das elites alagoanas, no geral, possuem baixo nível cultural. Em minha tese de doutorado, através da mediação de uma rápida análise do consumo de bens culturais das elites alagoanas arriscamos uma hipótese de classificação das mesmas através do esquadrinhamento em três categorias: de uma seleta minoria de elevado padrão cultural historicamente alheia ao consumo e visibilidade no que se refere às culturas populares. Incluso nesta, os consumidores dos clássicos, os que freqüentam periodicamente os paises e museus do primeiro mundo e que dominam os códigos da alta cultura; de uma segunda com um elevado padrão cultural e que além de consumidora dos produtos tradicionais dentro dos critérios de elevado padrão cultural (bons filmes, teatros, cinema, ballet, etc), diferencia-se da anterior pela incorporação valorativa das culturas populares. Compondo esta categoria, os folcloristas e uma seleta minoria de artistas e produtores culturais cujos temas e aspirações são construídos a partir de um imaginário voltado para as culturas populares alagoanas, e, finalmente, no que se refere ainda às elites, a especificidade de uma esmagadora maioria extremamente rica e poderosa e que vai ter como uma de suas principais características um baixo nível de consumo cultural. Esta maioria, esta grande parcela é alheia às praticas e aos valores das culturas populares. Assim, folclore, cinema, teatro, quadros, etc. são artefatos as margens e alheios aos seus imaginários. Comparando os padrões de consumo desta categoria com os padrões de uma produção erudita voltada para uma “disposição propriamente estética” a referencia do tipo de consumo desta categoria está voltada para o kitsch e para os modismos massificados do consumo cultural. Temos então que no geral, o consumo cultural das elites alagoanas é de baixo nível, uma vez que para que elas consumissem produtos de elevado nível cultural ela teria que ter acesso a códigos culturais específicos e que nem de longe ela domina. Quer um exemplo disso? O Delson Uchoa, o maior artista plástico de Alagoas, não vende um quadro por aqui, e, segundo ele, não existe público para comparar os quadros dele. No caso, o público são as elites, o povo no geral não consome artes plásticas.
Na verdade, ao contrário de outros Estados – seja Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro ou São Paulo – os símbolos de status da esmagadora maioria das elites alagoanas, não passam pelo consumo de bens culturais de qualidade. Para ela os símbolos de status no geral são três: a posse da terra, a do poder político (ser Deputado é um símbolo de nobreza) e a exibição dos bens santuários.

 

 

Mais uma vez, o que isso tem a ver com o turismo?

Tem tudo a ver. São as elites as donas dos meios de comunicação e em grande as responsáveis pela formação da opinião e formação do gosto. Em sua maioria as elites não conhecem as Alagoas. As elites alagoanas mantêm com Alagoas apenas uma relação utilitária. Em sua maioria quem são os donos das empresas do turismo alagoanas? Os filhos das elites e que herdam de seus antecedentes a desaculturação para com as coisas da terra das Alagoas. Quer ver uma coisa? A esmagadora maioria dos alagoanos de destaque nacional – Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Zumbi dos Paçmares, Djavan, etc. – são primeiro reconhecidos fora de Alagoas. Os turistas e os técnicos de turismo de outros estados simplesmente ficam impressionados como os alagoanos não conseguem ver as belezas de Alagoas e as culturas populares de seu povo. E o que pensar então dos cursos de turismo?

Então como você analisaria as estruturas curriculares dos cursos de turismo?

Ah! Em sua maioria os currículos deles são de uma pobreza oceânica no que se refere a construção de um olhar voltado para as particularidades alagoanas. Os alunos em sua maioria saem do curso com um baixo nível de informação sobre as particularidades alagoanas. Aliais, já saem prontinhos para reproduzirem o modelo da coisa do turismo de massa. Na verdade, no curriculum destes cursos, deveriam ser problematizadas questões de fundamental importância sobre a visibilidade e a invisibilidade das questões culturais alagoanas e de seus impasses, Todavia isso não acontece. Mas a culpa não é somente deles entende?

 

Existe um “culpado”?

É difícil encontrar um culpado. Isto seria simplista demais entende? Mas existe uma série de fatores. Além da coisa das elites de que já falamos, o Estado e o município deveriam intervir através da criação de uma agenda e de um planejamento estratégico no que se refere ao turismo dentro de uma perspectiva do que atualmente se entende por desenvolvimento sustentável. Mas veja como se estrutura a cadeia: os técnicos saem dos cursos de turismo, os quais por sua vez são também desaculturados para com as particularidades das culturas alagoanas e ocupam cargos tanto nas empresas como os órgãos estatais. E qual a saída? Ora, o Estado e o Município deveriam intervir no sentido de um planejamento estratégico voltados para as realidades locais e isso estaria dentro de um modelo de capitalismo emergente no qual a prática do turismo se insere no sentido de valorizar as culturas locais e ai então teríamos a valorização da região norte do estado riquíssimo em patrimônios ecológicos e históricos, o rio Manguaba, os roteiros das guerras dos holandeses, Calabar, etc.
Mas tudo isto tem a ver como vem sendo ao longo das décadas como vem sendo construída a modernidade alagoana, entende? A modernidade que está sendo construída por aqui é a modernidade que identificamos de modernidade vazia.

Explique-nos melhor sobre o que seria o que você está apontando como uma “Modernidade Vazia”.

Acredito podermos falar não de uma modernidade no abstrato entende? Mas modernidades, ou processos de modernidade, a qual sempre está atrelada a processos e conjunturas históricas, econômicas, geográficas, etc. O que estamos designando de modernidade vazia tem entre suas características: a destruição dos patrimônios ecológicos, o desconhecimento ou desprezo para com os patrimônios culturais, eventos e personagens da cultura local; a colonização dos espaços público, o atrelamento do capital local às grandes cadeias de bens e serviços globalizados em detrimento das possibilidades de uma articulação do capital com as possibilidades locais e no que se refere ainda ao processo específico da atual construção e emergência de uma identidade cultural em Alagoas, a articulação de discursos e práticas no que estamos apontando de identidade ornamental.
Na prática, esse tipo de modernidade se reveste de implicações diante das possibilidades de um engendramento ou não de formas de conhecimentos, práticas e saberes determinados por geografias culturais e possibilidades de políticas voltadas para o tipo de ocupação dos espaços e ordenamento das práticas sociais. O que eu estou querendo destacar é justamente a possibilidade do desenvolvimento no estado de um turismo voltado para a construção do local, o que somente pose se tornar possível a partir de uma modernidade que estamos identificando de uma modernidade situada.

 

E o que pode ser entendido enquanto uma “Modernidade Situada” no caso de Alagoas?

Se uma das características da modernidade vazia é a pura e simples destruição das tradições culturais, a nossa identificação de uma modernidade situada é determinada por uma articulação entre o global e o local, mediante os seguintes aspectos: uma percepção das características geográficas e reconhecimento dos patrimônios ecológicos, conhecimento dos patrimônios culturais, eventos e personagens locais; uma ocupação dos espaços públicos respeitando as particularidades e seus localismos, atrelamento do capital local às grandes cadeias de bens e serviços globalizados a partir das possibilidades de uma articulação voltada para as possibilidades locais, e finalmente, a articulação da identidade cultural a discursos e práticas a partir do localismo das micro-narrativas. No nosso entendimento, é a falta desta percepção, ou então uma certa visão política do todo que está na raiz do problema, entende?
Quer ver uma coisa: a cidade de Maceió está claramente dividida em duas metades e parece que ninguém percebe as implicações disto nem para o turismo e nem para o desenvolvimento de políticas públicas, entende?
Então a coisa toda passa pela forma de como se está se construindo o turismo em Alagoas e na montagem de uma imagem de Alagoas que vem sendo construída tanto no nível das agências governamentais como municipais. Tem sido principalmente o Estado o principal articular de uma imagem para Alagoas. Basta olhar os sites para ver ao que remete o somatório das imagens: as imagens de uma Alagoas composta apenas de Sol e Mar. Por sua vez esta imagem passa a ser veiculada pelas grandes operadoras que operam a nível nacional e pelas agências receptivas que operam em níveis locais. Por sua vez as agências receptivas locais, as que recebem os turistas, os encaminham para os roteiros turísticos já e desde sempre previamente determinados. Os de sempre não é? A praia do Francês, Maragogi, etc. Onde são formados os guias? Nas faculdades de turismo do Estado.
Pelo que eu pude levantar, tanto as operadoras como as receptoras somente querem atuar aonde existe uma infraestrutura já montada e elas não arriscam em atuar na área cultural.


E sendo Alagoas um estado riquíssimo em culturas populares por que as agências públicas não arriscam em atuar na área e de uma rica produção cultural?

Por falta de investimento do Estado nesta área. Somente para dar um exemplo, se não o único, Alagoas é um dos poucos estados da federação a não ter uma orquestra sinfônica, e isso é revelador não é?. A coisa começa por ai e é ai que está a caixa preta. Então esta mudança na construção do turismo alagoano, além da intervenção das agências governamentais responsáveis – a Setur (Secretaria Estadual do Turismo) e a Semptur (Secretaria Municipal de Promoção do Turismo) – a mudança deveria passar por um planejamento geral na política de desenvolvimento a nível de estado. Ou seja: deveria passar por um processo globalizante, o que incluiria um planejamento estratégico a ser levada a cabo pela própria Secretaria de Planejamento a nível de todo estado, entande?

 

E já que não existe este planejamento, qual o impacto disso no turismo alagoano?

Um impacto negativo, pois existe uma consolidação da imagem de Alagoas apenas como Sol e Mar e Alagoas é muito mais do que isso. Alagoas é uma imensidão de contrastes que se misturam em uma diversidade de paisagens geográficas e nestas paisagens estão localizadas culturas e locais de pouca visibilidade. Na verdade, esta divisão da cidade entre uma parte rica – a Ponta Verde e seus entornos – e os bairros lacustres e os bairros é de uma pobreza lamentável. Estamos vivendo em uma cidade apartada de se mesma e esta divisão se estende a divisão da cidade entre o litoral e nossos interiores e então tem se consolidado uma imagem de Alagoas que vem se multiplicando e se consolidando através da mídia e que vem se consolidando através das empresas de turismo. Ora, Alagoas não é apenas um centro de mar e sol. Alagoas são os seus contrastes e como disse um vez Tavares Bastos: nossa miséria é nossa riqueza. Se você observar aquela divisão de Alagoas em sete divisões turísticas que já destacamos atrás – Maceió e Região das Lagoas, Costa dos Coqueirais, Delta do Velho Chico, Canyons do São Francisco, Costa dos Corais, etc. – constatamos que as Alagoas está muito mais além. Existem mais de sessenta lagoas espalhadas por todo o estado e no entorno delas poderiam – somente para dar um exemplo – ser desenvolvido um turismo de camping que é um turismo de baixo custo, mas de longa duração. Os freqüentadores dos campings, geralmente jovens de classe média, gastam pouco, mas demoram muito e são formadores de opinião. Bastava um turismo deste tipo para gerar e alimentar uma cadeia produtiva. Ou seja: culinária, cultura popular, etc. Posteriormente, esta estrutura básica poderia proporcionar a implantação de uma infra-estrutura mais ampliada entende? Mas isso não acontece. As elites se revelam de um desconhecimento oceânico para com as particularidades locais e isso em todas as dimensões, do erudito ao popular. É justamente para isto que o economista Cícero Péricles aborda quando identifica a presença em Alagoas de mega projetos que nunca saem do papel. Na verdade, bastava um olhar sobre as particularidades alagoanas entende?
Mas na prática por que não se questiona o atual modelo turístico predominante? Por que ele está dando certo não é? Tanto o governo como os donos dos hotéis estão exultantes pois os indicadores indicam que os hotéis estão em sua maioria superlotados e as promessas na construção de novos hotéis consolidam o atual modelo de desenvolvimento turístico alagoano dentro que apontamos acima de “modernidade vazia”.
Bem, mas a questão não é esta. O que estamos destacando é que o atual modelo além de ser extremamente excludente das diferenças e particularidades alagoanas ele é também profundamente concentrador de renda, incluindo-se neste contexto dentro do mesmo círculo da tradicional concentração de renda da sociedade alagoana, entende?
O que estamos destacando são as possibilidades da implantação de um modelo turístico capaz de alavancar o estado através da ampliação da cadeia produtiva do turismo para outras geografias culturais mediante a implantação do turismo cultural, ecológico, de camping, etc. Na prática isto somente se tornaria possível com o desenvolvimento – e não destruição, é bom destacar – de um modelo de desenvolvimento turístico paralelo ao atualmente dominante, entende? Mas pergunto eu: quem vai elaborar este modelo? As elites das cidades lacustres de Marechal Deodoro, Santa Luzia do Norte, de Coqueiro Seco, Roteiro etc.? Claro que não, pois estas elites são elites colonizadas pelo imaginário e práticas das elites litorâneas, entende? A implantação deste modelo - que na ausência de um projeto estamos a chamar de Afro-Caeté – deveria ser uma iniciativa a ser construída em nível de estado entende? Falta ideologia entende? Ideologia no sentido da construção de um turismo alagoano dentro de uma modernidade rasurada pelas particularidades alagoanas.
A bem da verdade, no que se refere especificamente ao turismo, existe algo como que uma máfia (o termo é pesado, tenho consciência) onde cada grupo fica responsável uma parte.

No texto que você escreveu o Manifesto Sururu você afirma: “Mas aconteceu que Maceió fugiu da mundaú. Pensou que a lama e os caranguejos e os homens-caranguejos iam engolir ela!” O que você quis dizer exatamente com isso?

Nós já falamos mais acima sobre isto. É a coisa da divisão da cidade em duas metades, o que é terrível. Exemplar dessa divisão e desta exclusão fica escandalosa e vergonhosamente clara no carnaval. No carnaval a cidade fica vazia!! Nossa, até parece um conto do realismo fantástico. A cidade fica vazia. As pessoas fazem uma prévia, não para celebrar a chegada do carnaval, mas para saírem da cidade. Quer dizer: o carnaval em Maceió é um ensaio para as pessoas saírem da cidade e irem para Salvador, Recife ou para as praias e ninguém percebe isso? Tanto o Pinto da Madrugada como as previas de carnaval que deveriam ser rituais de agregação, se transformaram em rituais de desagregação. As pessoas brincam nas právias para celebrarem a saída de Alagoas e da capital. Isto existe? Elas cantam loas à Olinda e choram. Meu Deus que absurdo!! Isto é o máximo do colonialismo cultural entende?
Ora, no Carnaval é que as pessoas poderiam celebrar as suas diferenças e vestirem as suas fantasias. Mas não, acontece justamente o contrário. Mas por que isso acontece? Falta visibilidade e articulação entre as instâncias governamentais e as culturas populares entende? E se observarmos que somos uma cultura herdeira da cultura banto da Serra da Barriga e que nós somos terra de Zumbi e que o coco é alagoano, isto fica absurdo. Só para você ter um idéia do absurdo da coisa, há alguns anos atrás o senador Renan Calheiros, em uma matéria assinada em um jornal da cidade, colocou que em Maceió desfilam Caboclinhos!!! Meus Deus, os Caboclinhos não desfilam no carnaval de rua da cidade há décadas!!!
Faltam mediadores e articuladores culturais.

 

E por que não acontece um forte carnaval de rua em Maceió?

Bem, as variáveis são muitas e além da falta de investimento das esferas governamentais e a construção de políticas públicas capaz de atrelar o carnaval dentro da cadeia produtiva do turismo alagoano. Bem isto é agora, entende? Todavia esta problemática tem suas raízes históricas. O nó górdio da fragilidade de um carnaval de rua em Maceió está no Quebra dos terreiros de 1912. Ora, o que aconteceu ali, ainda sentimos hoje. Olha, quando o carnaval de rua, a coisa do frevo e do maracatu estava pegando em Recife e se tornando uma festa de rua, por aqui estávamos quebrando os terreiros de Candomblé e expulsando os negros e então quando chega na década de vinte do século passado, o carnaval de Rua já havia se tornado uma coisa pífia, fraquinha, entende?
Mas voltando à problemática do turismo. Se a construção do carnaval de rua em Alagoas fosse articulado aos imaginários das praias e ao imaginário lacustre, ele poderia se tornar um valor agregado à coisa do turismo, ai sim, teríamos a montagem de um hibridismo perfeito rasurado por coisas alagoanas.. Todavia, Maceió durante o carnaval se torna um balneário!!! Isso existe? Nossa, é muita estupidez.

E isto tudo tem a ver ainda com a coisa da divisão da cidade em duas metades como você colocou logo acima?

Tem tudo a ver sim. Na verdade, toda esta divisão tanto da cidade, quanto das praias, é um reflexo histórico de como tem se desenvolvido a sociedade alagoana e que historicamente vem determinando um lugar dos pobres e para os pobres e um lugar dos ricos e para os ricos. Temos então que a morfologia da cidade reflete a hierarquia social entende? E justamente esta morfologia também tem forçado durante as ultimas décadas ima percepção da cidade enquanto uma cidade exclusivamente praeira, como ainda a identidade de Alagoas enquanto um Paraíso das Águas e isto querendo dizer, um lugar apenas de praias. Não é por acaso que as elites vem historicamente nas últimas décadas ocupando o lugar das praias entende? Existe atualmente um perigoso e arriscado esquadrinhamento da cidade entre uma parte rica e uma parte pobre.
Agora, que as elites tenham tido a intenção ou a percepção disto, pouco importa. As ideologias funcionam assim na prática. Tanto Maceió quanto Alagoas têm os seus espaços claramente delimitados: o lugar dos ricos e enquanto símbolo de status, as praias. Quanto aos pobres, as lagoas, os bairros e as periferias das cidades e o carnaval de rua – pelo menos no entendimento das elites alagoanas – é coisa apenas de pobre entende? E tem sido a partir desta conjuntura que as culturas populares têm sido utilizadas e disciplinadas.

 

Utilizadas e disciplinadas? Como assim?

Utilizadas pelo turismo e pelas agências governamentais quando e do modo que lhes convém. Por exemplo: a coisa para o turista ver como a exibição de grupos folclóricos. Disciplinadas: eles têm o lugar delas. No carnaval, por exemplo, vem se criando uma percepção de Maceió, enquanto um espaço neutro aonde não existe a “zoada do carnaval”. Então a nossa capital vem se tornando apenas como um balneário, um lugar paradisíaco de descanso. Temos então que no carnaval, somem as representações das culturas populares e ficam apenas os bumbas-meu-boi urbanos e as periferias. No fundo o turista é direcionado apenas para o litoral e fora disto, Alagoas fica entregue ao acaso e ao escuro entende?

 

E qual a saída para estes entraves? Existiria alguma?

Sim claro que há. É ampliar os espaços de discussões e dar mais visibilidade às estas problemáticas. Pois no fundo Alagoas é isto que nos coloca o historiador Dirceu Lindoso: “Alagoas é o que se ama e dói”.

 

Edson Bezerra entrevistado por Ernani Viana e Alessandra Vieira de O Jornal
Ernani Viana é Graduado em Turismo e Produtor Cultural.
ernaniviana@gmail.com - 82 88781465

Postado em:29/03/08

 

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