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Por
um Turismo Afro-Caeté...
Edson Bezerra, mestrado em Antropologia (sobre a sexualidade
da prostituta), professor, pesquisador e Doutor em Sociologia na UFPE
e autor do Manifesto Sururu. Tornou-se um lugar comum a fala de que o Alagoano não possui uma estima elevada, tomando, por exemplo, a altivez pernambucana e orgulho baiano, de onde vem a ausência de um narcisismo alagoano? Isto realmente existe? Em parte sim e em parte não. Depende de onde você está olhando a questão. O alagoano se orgulha de ter as mais belas praias do Brasil, por exemplo. E isto é uma postura narcísica. Então o que você tem que ver é de onde se está olhando. Se você observar, nós temos uma cultura popular forte e poderosa e isso não existiria se no povo não houvesse um sentimento de narcisismo. Todavia a cultura popular alagoana não está no centro das representações culturais alagoanas entende? Somente umas alegorias, o chapéu do guerreiro, o gogó-da-ema entende? É essa uma questão central. Então existe um narcisismo do alagoano sim, mas um tipo de sentimento narcísico que como todo sentimento narcísico, não está atento para as diferenças. Como isso reflete na atividade turística? Existe alguma relação? Tem tudo a ver, uma vez que uma das características do turismo é o acento nas diferenças e no que em cada lugar ou região tem a oferecer ao outro que chega. O Outro quer dizer: “O estrangeiro”, o que vem para cá consumir o diferente e a diferença e isto por aqui nós temos em demasia. Segundo seu ponto de vista, como está se desenvolvendo o processo de construção do Turismo Alagoano? Através da montagem de um modelo extremamente pobre e perverso
e que vem se consolidando com o passar do tempo. O turismo predominante
em Alagoas é o turismo de Sol e Mar, um turismo que vem se consolidando
em detrimento da proliferação das outras atividades turísticas,
tais como o turismo cultural, o turismo ecológico, de camping,
etc. Há algum tempo atrás, a Secretaria de Turismo lançou
um folder que ainda hoje é atualíssimo ao dividir Alagoas
em sete regiões culturais: Maceió, Região das Lagoas,
Costa dos Coqueirais, Delta do Velho Chico, Canyons do São Francisco,
Costa dos Corais, Região dos Quilombos e finalmente a Região
das Tradições Culturais. Quer dizer, das oito, cinco delas
está diretamente ligado à natureza, e observe para um detalhe
revelador: Maceió está ficcionado da região das
lagoas. Ora, Maceió é uma cidade lacustre entende? E quanto às
regiões culturais, não existe nenhum planejamento estratégico
ligado a um processo de construção de um turismo cultural.
Na verdade, o que deveria ser uma fonte de distribuição
de renda – porque no turismo existe de fato essa possibilidade – se
consolida enquanto uma economia concentradora de renda. Ou seja: o turismo
está concentrado em um pequeno espaço, já consolidado,
pré-determinado e engessado – As praias de Maceió,
Barra de São Miguel, Maragogi, Francês, etc. – aonde
se concentram a cadeia produtiva do atual modelo do turismo alagoano.
No frigir dos ovos, os belos espaços das praias se transformaram
nos Cantos das Sereias, e como todos sabem, os cantos das sereias matam.
(risos).
Na verdade,
existe no que se refere às particularidades alagoanas,
uma profunda invisibilidade das riquezas das Alagoas. Em parte isso é um
reflexo das elites alagoanas, no geral, possuem baixo nível cultural.
Em minha tese de doutorado, através da mediação
de uma rápida análise do consumo de bens culturais das
elites alagoanas arriscamos uma hipótese de classificação
das mesmas através do esquadrinhamento em três categorias:
de uma seleta minoria de elevado padrão cultural historicamente
alheia ao consumo e visibilidade no que se refere às culturas
populares. Incluso nesta, os consumidores dos clássicos, os que
freqüentam periodicamente os paises e museus do primeiro mundo e
que dominam os códigos da alta cultura; de uma segunda com um
elevado padrão cultural e que além de consumidora dos produtos
tradicionais dentro dos critérios de elevado padrão cultural
(bons filmes, teatros, cinema, ballet, etc), diferencia-se da anterior
pela incorporação valorativa das culturas populares. Compondo
esta categoria, os folcloristas e uma seleta minoria de artistas e produtores
culturais cujos temas e aspirações são construídos
a partir de um imaginário voltado para as culturas populares alagoanas,
e, finalmente, no que se refere ainda às elites, a especificidade
de uma esmagadora maioria extremamente rica e poderosa e que vai ter
como uma de suas principais características um baixo nível
de consumo cultural. Esta maioria, esta grande parcela é alheia às
praticas e aos valores das culturas populares. Assim, folclore, cinema,
teatro, quadros, etc. são artefatos as margens e alheios aos seus
imaginários. Comparando os padrões de consumo desta categoria
com os padrões de uma produção erudita voltada para
uma “disposição propriamente estética” a
referencia do tipo de consumo desta categoria está voltada para
o kitsch e para os modismos massificados do consumo cultural. Temos então
que no geral, o consumo cultural das elites alagoanas é de baixo
nível, uma vez que para que elas consumissem produtos de elevado
nível cultural ela teria que ter acesso a códigos culturais
específicos e que nem de longe ela domina. Quer um exemplo disso?
O Delson Uchoa, o maior artista plástico de Alagoas, não
vende um quadro por aqui, e, segundo ele, não existe público
para comparar os quadros dele. No caso, o público são as
elites, o povo no geral não consome artes plásticas.
Mais uma vez, o que isso tem a ver com o turismo? Tem tudo a ver. São as elites as donas dos meios de comunicação e em grande as responsáveis pela formação da opinião e formação do gosto. Em sua maioria as elites não conhecem as Alagoas. As elites alagoanas mantêm com Alagoas apenas uma relação utilitária. Em sua maioria quem são os donos das empresas do turismo alagoanas? Os filhos das elites e que herdam de seus antecedentes a desaculturação para com as coisas da terra das Alagoas. Quer ver uma coisa? A esmagadora maioria dos alagoanos de destaque nacional – Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Zumbi dos Paçmares, Djavan, etc. – são primeiro reconhecidos fora de Alagoas. Os turistas e os técnicos de turismo de outros estados simplesmente ficam impressionados como os alagoanos não conseguem ver as belezas de Alagoas e as culturas populares de seu povo. E o que pensar então dos cursos de turismo? Então como você analisaria as estruturas curriculares dos cursos de turismo? Ah! Em sua maioria os currículos deles são de uma pobreza oceânica no que se refere a construção de um olhar voltado para as particularidades alagoanas. Os alunos em sua maioria saem do curso com um baixo nível de informação sobre as particularidades alagoanas. Aliais, já saem prontinhos para reproduzirem o modelo da coisa do turismo de massa. Na verdade, no curriculum destes cursos, deveriam ser problematizadas questões de fundamental importância sobre a visibilidade e a invisibilidade das questões culturais alagoanas e de seus impasses, Todavia isso não acontece. Mas a culpa não é somente deles entende?
Existe um “culpado”? É difícil encontrar um culpado. Isto seria simplista demais
entende? Mas existe uma série de fatores. Além da coisa
das elites de que já falamos, o Estado e o município deveriam
intervir através da criação de uma agenda e de um
planejamento estratégico no que se refere ao turismo dentro de
uma perspectiva do que atualmente se entende por desenvolvimento sustentável.
Mas veja como se estrutura a cadeia: os técnicos saem dos cursos
de turismo, os quais por sua vez são também desaculturados
para com as particularidades das culturas alagoanas e ocupam cargos tanto
nas empresas como os órgãos estatais. E qual a saída?
Ora, o Estado e o Município deveriam intervir no sentido de um
planejamento estratégico voltados para as realidades locais e
isso estaria dentro de um modelo de capitalismo emergente no qual a prática
do turismo se insere no sentido de valorizar as culturas locais e ai
então teríamos a valorização da região
norte do estado riquíssimo em patrimônios ecológicos
e históricos, o rio Manguaba, os roteiros das guerras dos holandeses,
Calabar, etc. Explique-nos melhor sobre o que seria o que você está apontando como uma “Modernidade Vazia”. Acredito
podermos falar não de uma modernidade no abstrato entende?
Mas modernidades, ou processos de modernidade, a qual sempre está atrelada
a processos e conjunturas históricas, econômicas, geográficas,
etc. O que estamos designando de modernidade vazia tem entre suas características:
a destruição dos patrimônios ecológicos, o
desconhecimento ou desprezo para com os patrimônios culturais,
eventos e personagens da cultura local; a colonização dos
espaços público, o atrelamento do capital local às
grandes cadeias de bens e serviços globalizados em detrimento
das possibilidades de uma articulação do capital com as
possibilidades locais e no que se refere ainda ao processo específico
da atual construção e emergência de uma identidade
cultural em Alagoas, a articulação de discursos e práticas
no que estamos apontando de identidade ornamental.
E o que pode ser entendido enquanto uma “Modernidade Situada” no caso de Alagoas? Se uma
das características da modernidade vazia é a pura
e simples destruição das tradições culturais,
a nossa identificação de uma modernidade situada é determinada
por uma articulação entre o global e o local, mediante
os seguintes aspectos: uma percepção das características
geográficas e reconhecimento dos patrimônios ecológicos,
conhecimento dos patrimônios culturais, eventos e personagens locais;
uma ocupação dos espaços públicos respeitando
as particularidades e seus localismos, atrelamento do capital local às
grandes cadeias de bens e serviços globalizados a partir das possibilidades
de uma articulação voltada para as possibilidades locais,
e finalmente, a articulação da identidade cultural a discursos
e práticas a partir do localismo das micro-narrativas. No nosso
entendimento, é a falta desta percepção, ou então
uma certa visão política do todo que está na raiz
do problema, entende?
Por falta de investimento do Estado nesta área. Somente para dar um exemplo, se não o único, Alagoas é um dos poucos estados da federação a não ter uma orquestra sinfônica, e isso é revelador não é?. A coisa começa por ai e é ai que está a caixa preta. Então esta mudança na construção do turismo alagoano, além da intervenção das agências governamentais responsáveis – a Setur (Secretaria Estadual do Turismo) e a Semptur (Secretaria Municipal de Promoção do Turismo) – a mudança deveria passar por um planejamento geral na política de desenvolvimento a nível de estado. Ou seja: deveria passar por um processo globalizante, o que incluiria um planejamento estratégico a ser levada a cabo pela própria Secretaria de Planejamento a nível de todo estado, entande?
E já que não existe este planejamento, qual o impacto disso no turismo alagoano? Um impacto
negativo, pois existe uma consolidação da imagem
de Alagoas apenas como Sol e Mar e Alagoas é muito mais do que
isso. Alagoas é uma imensidão de contrastes que se misturam
em uma diversidade de paisagens geográficas e nestas paisagens
estão localizadas culturas e locais de pouca visibilidade. Na
verdade, esta divisão da cidade entre uma parte rica – a
Ponta Verde e seus entornos – e os bairros lacustres e os bairros é de
uma pobreza lamentável. Estamos vivendo em uma cidade apartada
de se mesma e esta divisão se estende a divisão da cidade
entre o litoral e nossos interiores e então tem se consolidado
uma imagem de Alagoas que vem se multiplicando e se consolidando através
da mídia e que vem se consolidando através das empresas
de turismo. Ora, Alagoas não é apenas um centro de mar
e sol. Alagoas são os seus contrastes e como disse um vez Tavares
Bastos: nossa miséria é nossa riqueza. Se você observar
aquela divisão de Alagoas em sete divisões turísticas
que já destacamos atrás – Maceió e Região
das Lagoas, Costa dos Coqueirais, Delta do Velho Chico, Canyons do São
Francisco, Costa dos Corais, etc. – constatamos que as Alagoas
está muito mais além. Existem mais de sessenta lagoas espalhadas
por todo o estado e no entorno delas poderiam – somente para dar
um exemplo – ser desenvolvido um turismo de camping que é um
turismo de baixo custo, mas de longa duração. Os freqüentadores
dos campings, geralmente jovens de classe média, gastam pouco,
mas demoram muito e são formadores de opinião. Bastava
um turismo deste tipo para gerar e alimentar uma cadeia produtiva. Ou
seja: culinária, cultura popular, etc. Posteriormente, esta estrutura
básica poderia proporcionar a implantação de uma
infra-estrutura mais ampliada entende? Mas isso não acontece.
As elites se revelam de um desconhecimento oceânico para com as
particularidades locais e isso em todas as dimensões, do erudito
ao popular. É justamente para isto que o economista Cícero
Péricles aborda quando identifica a presença em Alagoas
de mega projetos que nunca saem do papel. Na verdade, bastava um olhar
sobre as particularidades alagoanas entende? Nós já falamos mais acima sobre isto. É a coisa
da divisão da cidade em duas metades, o que é terrível.
Exemplar dessa divisão e desta exclusão fica escandalosa
e vergonhosamente clara no carnaval. No carnaval a cidade fica vazia!!
Nossa, até parece um conto do realismo fantástico. A cidade
fica vazia. As pessoas fazem uma prévia, não para celebrar
a chegada do carnaval, mas para saírem da cidade. Quer dizer:
o carnaval em Maceió é um ensaio para as pessoas saírem
da cidade e irem para Salvador, Recife ou para as praias e ninguém
percebe isso? Tanto o Pinto da Madrugada como as previas de carnaval
que deveriam ser rituais de agregação, se transformaram
em rituais de desagregação. As pessoas brincam nas právias
para celebrarem a saída de Alagoas e da capital. Isto existe?
Elas cantam loas à Olinda e choram. Meu Deus que absurdo!! Isto é o
máximo do colonialismo cultural entende?
E por que não acontece um forte carnaval de rua em Maceió? Bem,
as variáveis são muitas e além da falta de
investimento das esferas governamentais e a construção
de políticas públicas capaz de atrelar o carnaval dentro
da cadeia produtiva do turismo alagoano. Bem isto é agora, entende?
Todavia esta problemática tem suas raízes históricas.
O nó górdio da fragilidade de um carnaval de rua em Maceió está no
Quebra dos terreiros de 1912. Ora, o que aconteceu ali, ainda sentimos
hoje. Olha, quando o carnaval de rua, a coisa do frevo e do maracatu
estava pegando em Recife e se tornando uma festa de rua, por aqui estávamos
quebrando os terreiros de Candomblé e expulsando os negros e então
quando chega na década de vinte do século passado, o carnaval
de Rua já havia se tornado uma coisa pífia, fraquinha,
entende? E isto tudo tem a ver ainda com a coisa da divisão da cidade em duas metades como você colocou logo acima? Tem
tudo a ver sim. Na verdade, toda esta divisão tanto da cidade,
quanto das praias, é um reflexo histórico de como tem se
desenvolvido a sociedade alagoana e que historicamente vem determinando
um lugar dos pobres e para os pobres e um lugar dos ricos e para os ricos.
Temos então que a morfologia da cidade reflete a hierarquia social
entende? E justamente esta morfologia também tem forçado
durante as ultimas décadas ima percepção da cidade
enquanto uma cidade exclusivamente praeira, como ainda a identidade de
Alagoas enquanto um Paraíso das Águas e isto querendo dizer,
um lugar apenas de praias. Não é por acaso que as elites
vem historicamente nas últimas décadas ocupando o lugar
das praias entende? Existe atualmente um perigoso e arriscado esquadrinhamento
da cidade entre uma parte rica e uma parte pobre.
Utilizadas e disciplinadas? Como assim? Utilizadas pelo turismo e pelas agências governamentais quando e do modo que lhes convém. Por exemplo: a coisa para o turista ver como a exibição de grupos folclóricos. Disciplinadas: eles têm o lugar delas. No carnaval, por exemplo, vem se criando uma percepção de Maceió, enquanto um espaço neutro aonde não existe a “zoada do carnaval”. Então a nossa capital vem se tornando apenas como um balneário, um lugar paradisíaco de descanso. Temos então que no carnaval, somem as representações das culturas populares e ficam apenas os bumbas-meu-boi urbanos e as periferias. No fundo o turista é direcionado apenas para o litoral e fora disto, Alagoas fica entregue ao acaso e ao escuro entende?
E qual a saída para estes entraves? Existiria alguma? Sim
claro que há. É ampliar os espaços de discussões
e dar mais visibilidade às estas problemáticas. Pois no
fundo Alagoas é isto que nos coloca o historiador Dirceu Lindoso: “Alagoas é o
que se ama e dói”.
Edson
Bezerra entrevistado por Ernani Viana e Alessandra Vieira de O Jornal
faleconosco@tudoalagoas.com.br
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