CULTURA POPULAR
TRATAMENTOS


 

 

 



A medicina popular ou rústica é a utilização pelo povo de drogas, substâncias, gestos ou palavras para obter mais saúde para as pessoas. Não é apenas uma coleção de plantas medicinais, usadas para prevenir e curar doenças. Há também o seu lado mágico, suas ações e orações que o povo utiliza na cura dos seus males físicos e mentais.

A sua origem pode ter sido a observação. Vendo o teju lutar com uma cobra venenosa e, ao ser picado por ela, parar a luta e comer um pedaço de batata de cabeça de negro como antídoto ou vendo o cachorro comer capim para curar suas dores de barriga, o homem primitivo descobriu que certas plantas curam alguns males.

O uso de remédios feitos com flores, frutos, folhas, raízes e tubérculos de determinadas plantas é tão antigo quanto os primórdios da história da humanidade. Asiáticos, europeus, africanos, americanos e australianos sempre buscaram e continuam encontrando nas plantas alívio ou cura para os seus males.

Os laboratórios farmacêuticos só começaram a se desenvolver no início do século XX. Nas décadas de 1920 e 1930, os remédios eram preparados de forma artesanal - ou aviados, como se dizia na época nas boticas ou farmácias.

No Brasil, ela é o resultado de uma série de aculturações de técnicas utilizadas pelo português, pelo indígena e pelo negro. A contribuição do pajé ameríndio, do feiticeiro negro e do bruxo europeu foi de tal maneira misturada que hoje seria difícil distinguir o que é puramente indígena, negro ou branco.

Existem várias formas de medicina popular: a fitoterapia, a medicina mágica, a medicina mística ou religiosa, a medicina escatológica ou excretoterapia.

A fitoterapia é a que utiliza as plantas medicinais, através de chás, lambedouros, garrafadas, ungüentos, purgantes, emplastros, remédios populares que são chamados de meizinhas na região Nordeste do Brasil. Algumas das meizinhas mais comuns são: folha de pimenta, em forma de emplastro, para picada de marimbondo; chá da folha do abacateiro, para problemas renais; sumo de malva com mel, para tosse; água de arroz adocicada ou chá da folha de pitomba, para hemorragias; sumo de arruda, para convulsões.

É uma herança que os índios nos deixaram e uma das mais antigas formas de tratamento de doenças. Os africanos também trouxeram suas ervas nativas que se mesclaram com especiarias do Oriente. Os portugueses disciplinaram o seu uso e investigaram com mais profundidade as propriedades terapêuticas de cada planta, cabendo aos jesuítas as suas anotações, o que fez com que fossem difundidas pela Europa e o mundo científico, as propriedades terapêuticas, por exemplo, do quinino, da ipecacuanha e do curare.

A medicina mágica procura curar o que de estranho foi colocado pelo sobrenatural no doente ou extirpar o mal que o faz sofrer. Está muito vinculada aos ritos afro-brasilieros e indígenas, especialmente os de macumba, candomblé ou umbanda e dos catimbós. Baseia-se também em tabus alimentares ou de conduta. Os índios nos transmitiram os preceitos mágicos da cura pela defumação; dos negros malés, vindos da Nigéria, assimilamos os conceitos do mágico e dos demônios como causadores de doenças. As técnicas empregadas na medicina mágica são as benzeduras, conjunto de rezas, gestos ou palavras ditas por pessoas especializadas como o curador, rezador ou benzedor; as simpatias, uma forma de benzedura, mas que podem ser executadas por qualquer pessoa; os patuás, amuletos, santinhos e talismãs, elementos materiais capazes de prevenir e evitar doenças e perigos, entre outros.

A medicina mística ou religiosa usa a religião como força mágica da cura. Faz-se uma adivinhação simbólica para saber qual é a divindade ofendida, pela quebra de um tabu ou desobediência de uma determinação divina e, através de ritos, busca-se homenageá-la, como por exemplo é feito no candomblé. Na devoção popular alguns santos da religião católica romana são invocados como especialistas em um ramo da medicina. Umas orações visam a proteção das pessoas, outras, a cura das doenças: São Sebastião cura feridas; São Roque cura e evita pestes; São Lourenço dor de dentes; São Brás protege das enfermidades da garganta e salva de engasgos; rezas para São Bento protegem contra mordidas de cobras, insetos venenosos e cães hidrófobos; Santa Luzia as doenças dos olhos; Santa Ágata os pulmões e vias respiratórias; São Lázaro a lepra e as feridas sérias; São Miguel os tumores malignos e benignos; Nossa Senhora do Bom Parto a gestação e o parto.

A chamada medicina escatológica ou excretoterapia utiliza como método terapêutico substâncias ou ações repugnantes ou anti-higiênicas, como fezes, urina, saliva, cera de ouvido. Estas práticas muito antigas, já eram utilizadas pelos egípcios. No Brasil, especialmente na região Nordeste, algumas fórmulas da excretoterapia ainda são muito comuns, como o uso de saúva torrada com café para crises de asma; chá de fezes de cachorro embranquecidas pelo sol, contra o sarampo; estrume úmido, friccionado na pele, para curar frieira; urina de vaca adicionada ao leite para tratar a coqueluche; a saliva logo ao se levantar, antes de falar qualquer palavra, serve para curar feridas.

A medicina popular nunca deixou de existir no Brasil, principalmente do Nordeste, onde continua sendo largamente usada tanto no litoral como no agreste e no sertão, especialmente pela população de baixa renda, que não dispõe de recursos para comprar produtos farmacêuticos.

 

 



AFTA ou SAPINHO (afta de criancinhas)
. bochecho com o cozimento da casca da romã (no caso de adultos);
. chá de alfavaca;
. passar lambedor de malva-rosa;
. passar mel de uruçu ou um pedaço de carne verde crua.

AMEBA
. chá de semente de alho;
. lambedor da folha de hortelã-da-folha-miúda ou da folha de mastruço;
. chá de hortelã-da-folha-miúda com mel-de-abelha;
. chá de ipecacuanha.

APENDICITE
. chá da raiz de maliça;
. chá de aroeira;
. chá de capim roxo;
. chá da raiz de camapu.

ANEMIA
. suco de cenoura;
. suco de beterraba;
. xarope de agrião (250 gramas do sumo, uma clara de ovo e 350 gramas de açúcar);
. chá da raiz de jurubeba;
. cará com mel-de-engenho;

ASMA (cansaço-do-peito, piado ou puxado)
. chá ou lambedor de alho branco;
. chá do mangará da bananeira;
. chá da semente de girassol;
. chá de folha de alecrim;
. chá da flor do mamoeiro macho;
. mel-de-abelha uruçu com gema de ovo;
. lambedor da casca de angico;
. chá de lesma torrada.

BICHO-DE-PÉ
. encher a cavidade com sarro de cachimbo ou com rapé (fumo);
. pingar creolina;
. colocar sabão amarelo.

CÁLCULOS RENAIS (pedras-nos-rins)
. chá de quebra-pedra;
. chá de rama de batata-doce;
. chá da folha da caramboleira;
. chá de alpiste.

CALO
. colocar no local uma rodela de tomate;
. pingar vela em cima;
. passar cera-de-ouvido;
. pingar leite de avelós;
. friccionar com sumo de alho;

CASPA

. lavar a cabeça com raspa de juá de três em três dias;
. esfregar o couro cabeludo com limão;
. lavar a cabeça com água de coco seco;

DIABETES
. chá de carambola, que diminui a taxa de açúcar no sangue;
. chá da flor do sabugueiro;
. tomar coalhada com limão;
. chá de três folhas do olho da goiabeira-da-china (goiaba branca).

DOR-DE-BARRIGA

. chá da flor de macela;
. chá da raiz de ipecacuanha;
. chá das folhas novas da goiabeira;
. chá de capim-santo;
. chá de erva-cidreira;
. chá de moela de galinha;
. comer banana prata verdosa;
. comer um pedaço de macaxeira branca crua.

ENXAQUECA
. chá de semente de cravo;
. chá de boldo;
. chá de erva-doce;
. chá de castanha verde de caju;
. tomar café com dois dentes de cravo-do-reino.

FEBRE

. chá de eucalípto;
. chá de erva-cidreira;
. chá da casca do cajueiro;
. chá de alho, bem forte.

TOSSE

. chá da flor cravo-de-defunto;
. lambedor da casca de jatobá;
. lambedor de sabugueiro;
. chá das folhas de hortelã;
. chá de gengibre.
. uma colher de mel-de-abelha uruçu, algumas vezes durante o dia.

Fonte:
SOUTO MAIOR, Mário. Remédios populares do Nordeste. Recife: FJN. Ed. Massangana, 1986.



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