CULTURA POPULAR
PERSONAGENS


 

 

 


Jacinto Silva

Nascido em Palmeira dos Índios, Sebastião Jacinto da Silva, foi criado ouvindo os cantadores de coco, violeiros, mestres de reisados, guerreiros, cantadores de sentinela e terço. O menino Jacinto logo cedo assimilou os ritmos do povo das Alagoas.

Sua primeira apresentação pública aconteceu na década de 50, no auditório da velha Rádio Difusora, no programa da saudosa Odete Pacheco, onde foi batizado com o nome artístico de Jacinto Silva. Em 1958, transfere-se para Caruaru, onde inicia profissionalmente sua carreira artística.

Em 1962, gravou pela gravadora Mocambo em 78 RPM (rotações), seu primeiro disco com as músicas: Bambuá-Bambuá e Justiça Divina, alcançando sucesso em todo o Nordeste, pouco tempo depois grava pela CBS seu primeiro LP, que se intitulou Cidade de Alagoas, com destaque para as músicas Aquela Rosa e Chora Bananeira, baseada no folclore nordestino.

Aquela rosa foi uma jura que fiz
Quando eu tinha no jardim
Jurei muito em te querer
Eu espero por você
E você ter que me querer

Foi influenciado por Jackson do Pandeiro e Ary Lobo, com quem conviveu na década de 60 no Rio de Janeiro, Severino Januário, Luiz Gonzaga, Abdias, Trio Nordestino e outros bons da música nordestina.
Em seu vasto e rico repertório aparece os cocos, as emladas, benditos, guerreiros e tantos outros ritmos baseados no folclore nordestino.
Além de intérprete, Jacinto também compunha suas músicas ao lado de compositores famosos como Onildo Almeida, Juarez Santiago, Janduhi Finizola, Ivan Ferraz, Sebastião França, Luiz Queiroga, Florival Ferreira, João Silva, Zé do Rojão, Geraldo Lopes e Zé do Brejo.
De sua obra musical constam os discos: Ritmos Explosivos, Só Era Eu, Gírias dio Norte, Eu Chego Já, Confusão no Galinheiro, Festival de Verão, Jogo do Amor, Agora Tu Pega e Vira, Jacinto Silva, Vestido de Marroca, Mocotó com Catuaba, Vire que tem Forró, Desafio, O que é meu é teu, Saudade de Alagoas. Além da presença quase constante, na série Pau de Sebo, da CBS.
Segundo Jacinto, seu grande sucesso foi a marcha de roda Aquela Rosa, mas outras músicas lhe valeram sucessos como Sabiá da Mata, Terra do Folclore, Gíria do Norte (esta com versão em japonês), Puxa o Fole Zé, Saudade de Alagoas, Coco Machucado, Adeus Corina, Apoio de um Vaqueiro, Coco Trocado, Carreiro Novo e tantas outras.
Em 1993, quando Jacinto esteve em Maceió, tive o prazer em conhecê-lo mais de perto e sentir o valor não só do artista, mas da sua personalidade. Visitamos os folguedos alagoanos, onde sentiu-se bastante à vontade. À noite no Burungundu, no bairro do Jacintinho, fez um lindo show ao lado de seu amigo Tororó do Rojão.
Em 1988 participou juntamente com a banda de pífano de Caruaru e outros artistas pernambucanos, do projeto O Vôo do Forró, com uma série de apresentações na Europa, principalmente, na França e Alemanha.
Jacinto Silva participou do último disco do grupo pernambucano Cascabulho, onde interpretou com maestria a música Xodó de Sanfoneiro, surgindo daí uma grande amizade entre Jacinto e os jovens artistas pernambucanos.
Seus últimos discos foram produzidos por Zé da Flauta, que também lhe ajudou e incentivou bastante.
Tive o prazer em receber, em 2001, seu mais novo disco (enviado por ele), intitulado “Jacinto Silva – Só não dança quem não quer”, belíssimo trabalho em que ele relembra grandes de seus sucessos, com produção e direção de Zé da Flauta.
Em maio do ano passado, estive em sua residência, em Caruaru(no Conjunto INOCOP), onde passamos uma manhã inteira conversando e ouvindo suas histórias e planos. Não sabia que estaria a me despedir do grande Jacinto Silva, o maior cantador de Coco dos últimos tempos.
O compositor e cantor Jacinto Silva morreu no dia 19 de março de 2001, vítima de um mal que lhe acometia há vários anos.

Oh que saudade danada,
Não posso nem recordar
Me lembrei do meu xodó
Lá de Maceió e da turma de lá.
Nunca mais eu vi um sururuzeiro
Entrar na lagoa e tirar sururu
Pegar siri ou caranguejo sá
Camarão e ostra também tem valor
Jacinto se lembrou
Da sua terra amada
Tenho saudade do Gogó da Ema
E das morenas que tem na Levada
Eu tenho saudade do bairro do Poço
Trapiche da Barra, Mangabeiras e o Farol,
Da Ponta da Terra e de Jaraguá.
Olha! Na Rua do Sol e na Ponta Grossa
No Vergel do Lago eu tinha namoro
Pois me deu saudade da turma de lá
E hei de visitar meu bairro de Bebedouro.

Por Ranilson França (Folclorista falecido em 2006)

Resumo:
Jacinto Silva começou a sua carreira desde cedo, quando ainda era garoto, com apenas 8 anos em 1942. Fazia apresentações acompanhado por um conjunto regional em feiras e festas da cidade alagoana de Palmeiras dos Indios.
Jacinto Silva foi construindo, através de sua peculiar forma de cantar e compor, uma vertente do côco que se transformou em seu legado pessoal para a música brasileira, o Côco Sincopado. (esse texto foi retirado do texto: Jacinto Silva - O desmantelo que constroi, de Gilson Oliveira)
Nascido em 1933 em Palmeira dos índios-AL, gravou de 1962 a 2000, desse período conseguimos coletar cerca de 20 obras.
Nesse disco ouvimos uma canção na qual se caracteriza claramente o estilo sincopado de se cantar o côco é a que dá seu nome ao álbum.

Joana Gajuru

A festa do Guerreiro é uma das mais populares de Alagoas. Uma fusão da festa do Reisado com a festa do Cabloquinho, a festa do Guerreiro só conseguiu sobreviver através do século XX graças à dedicação e força de uma mulher incomum, que se vestia de homem: Joana Gajuru.

Joana Maria da Conceição nasceu aproximadamente em 26 de agosto de 1866 na cidade alagoana de Lagoa da Canoa. A data é imprecisa porque naquela época não se usava registrar em cartório as meninas negras nascidas no engenho. Mesmo assim Joana foi batizada na Igreja e depois ganhou o apelido de "gajuru", dado a todos os negros nascidos por lá.


Joana Gajuru começou a dançar o Guerreiro, segundo ela própria, quando tinha apenas 15 anos. Naquela época a festa era feita e protagonizada apenas por homens. Joana nem quis saber: logo rompeu a tradição e passou a organizar, ela própria, a sua festa do Guerreiro. Depois disso não parou mais e, durante 70 anos, Joana Gajuru levou sua festa por todo o estado de Alagoas, começando na noite de Natal, passando pelo Dia de Reis e se estendendo durante os meses de janeiro e fevereiro.

Além da diversão que proporcionava, levando seu teatro de rua, a pé, por todos os cantos das Alagoas, Joana chamava atenção pelo sua aparência bastante peculiar. Ela só se vestia com roupas de homem, botinas e carregava na cinta um facão e um revólver. Usava os cabelos bem curtos, em corte militar, escondidos sob um chapéu de palha. Uma figura! O povo do nordeste costumava referir-se a ela como Mulher-Macho por sua aparência e valentia. A fama corria também porque Joana protegia e levava para casa as mulheres que faziam o papel de Rainha nas suas festas - foram muitas e eram muito bem tratadas. A bolachice de Joana era bem conhecida pelo povo que não se incomodava com isso e até tinha uma versão para o fato de Joana preferir morar com suas Rainhas. Dizem que, depois de uma decepção amorosa com o marido branco, que a escondia por ela ser negra, Joana prometeu "nunca mais esquentar costela de homem nesta vida. Homem, nunca mais!". Dito e feito. Joana voltou-se então para suas Rainhas.

Gajuru conseguiu viver mais de 120 anos. As poucas fotografias suas que restam são de uma das últimas festas que promoveu, mas quando já estava bem velhinha e com a saúde abalada. Mesmo assim Joana Gajuru dançou seu Guerreiro, fumou seu cigarro de corda e bebeu sua cachacinha. Morreu, gloriosa, no ano de 1986 mas seus filhos adotivos lamentam o esquecimento e o desdém das autoridades alagoanas: "nem praça, nem rua. Nada lembra Joana Gajuru".


 

 



Miss Paripueira


Foto: Celso Brandão

Miss Paripueira é uma figura folclórica do município de Paripueira, a 27 km de Maceió, estado de Alagoas. Usava óculos enormes, vestido estampado de cores berrantes, sempre cheia de colares pelo pescoço. Vivia pedindo dinheiro a um e a outro e agredia a quem não dava. Era fã fervorosa do ex-presidente Fernando Collor, que foi cassado por corrupção em 1992, ela não admitia que ninguém falasse mal de seu querido. Por várias vezes surgiam boatos de sua morte. Era uma figura fácil de se achar em Maceió e era sempre alvo de brinacadeiras de crianças pela rua.


Moleque Namorador

O Moleque Namorador era o apelido de armando Veríssimo Ribeiro, alagoano de são Luiz do Quitunde, que morava na Rua Xavier de Brito, no Prado, mas animava os carnavais de Ponta Grossa, exatamente no largo que deu origem a praça. Era um jornaleiro muito conhecido na cidade nas décadas de 30 e 40, sempre de bom humor e um verdadeiro folião.

O carnaval mais popular de Maceió é na Praça Moleque Namorador, no bairro de Ponta Grossa, reduto dos mais autênticos foliões, que seguem a tradição do patrono da praça, como passista vencedor de vários concursos, morto de tuberculose em 1949, mas com seu nome imortilizado no principal centro festeiro do bairro.

Os moradores continuaram preservando alegria do Moleque Namorador e, fazem o melhor carnaval de rua de Maceió. A praça foi erguida nos anos 60 e tem placa e uma escultura de um passista lembrando seu patrono.

Pedro Tarzan: Herói do Carnaval

Faleceido em 28 de outubro de 2001, em nossa cidade, o caranavalesco Pedro Ferreira Auta, popular Pedro Tarzan.
Nascido em Malhada, Sergipe, ainda jovem transferiu-se para a capital alagoana, na tentativa de conquistar um lugar ao sol, em uma cidade mais próspera. Alentava a idéia de ser artista de cinema.
A alcunha de “Tarzan” surgiu pelo seu esmero em prática de halterofilismo, lá pelos anos cinquenta, sendo um pioneiro neste esporte em nossa capital, ao lado de outros companheiros atletas.
À época, a grande estrela do cinema, era o campeão olímpico Johnny Weissmuller, um dos mais famosos intérpretes de Tarzan.
Pedro, devido ao seu físico avantajado, igualava-se ao astro do cinema e, assim, virou “Pedro Tarzan” surgindo daí sua fama, sempre se apresentando solitário nos carnavais de Maceió.
Pedro buscou no cinema sua fonte de inspiração para as suas fantasias. Lampião, baseado no filme “ O Cangaceiro”, de Lima Barreto; Spartacus, inspirado em Kirk Douglas; O Grande Guerreiro, com Victor Mature; ou ainda inspirado em Steve Reeves, Rondolph Scott, Jack Palace, Clark Gable e Ricardo Montablan.
Apesar de sua inspiração hollywoodiana, Pedro nãp perdia as suas origens étnicas, sempre mostrando-se orgulhoso por ser “cabloco nordestino” de mistura de índio com negro.
Um levantamento feito por Fernando Cerqueira, em entrevista ao mesmo, várias foram as fantasias apresentadas por ele nos quase quarenta anos de carnaval, vividos em Maceió. Carrasco, Vassalo, Pele Vermelha, Lampião, rei Dário, Caramuru, Spartarcus, Girassol, Serra Negra, Comanche, Golias, Vira Mundo, Caetés, Tibiriçá, Chucurus, Araripola e Oxosse. Sua grande frustração foi não ter trajado Tutancamon, famoso Faraó do Egito.
Sua maior alegria foi em 1957, ter sido vencedor do concurso realizado pela academia Ginásio Sansão, Peso, Força e Saúde, como o destaque do ano em halterofilismo.
Em 1990, a Secretaria Estadual de Cultura promoveu, na Galeria Lourenço Peixoto, uma exposição sobre o tema ‘ O Folclore do Carnaval Alagoano”, cujo homenageado foi o carnavalesco Pedro Trazan. Ainda, contendo fotos e fantasias, além de apresentação de folguedos carnavalescos. Naquele mesmo ano, a AL Cultura lançou o periódico “É Tempo de Folclore!”, edição especial do Carnaval de 1990, com artigos e pesquisas de Fernando Cerqueira, Pedro Rocha, Josefina Novaes, Ana Clara Vasconcelos e Elinaldo Barros.
Anteriormente, por ocasião do último Festival de Verão de Marechal Deodoro, foi apresentada uma exposição com o objetivo de mostrar sua obra e trajetória nos carnavais de Maceió.
Ainda em 1990, so a direção de Pedro Rocha, foi lançado o vídeo “Pedro Tarzan- O Épico Caboclo”, numa iniciativa oportuna da Associação dos Folguedos Populares de Alagoas e VTK Produções, este vídeo foi exibido em escolas públicas e particulares do Estado, bem como chegou a ser veiculado em festivais nordestinos e no programa “Balançando o Ganzá”, da TVE.
Mas, Tarzan também era poeta e vivia dizendo suas poesias em todos os lugares que chegava, inclusive nos transportes coletivos, com seus cadernos em manuscritos, era um verdadeiro “menestrel”. Na gestão do Secretário Alberto Leão, foi lançado o seu primeiro trabalho de cordel, intitulado “O Sertão do Passado”, escrito em oito linhas que tratava das belezas do sertão.
“ Quando a lua estava só / Sem ter planeta por perto / Girando lá no deserto / No quadro que lhe cabia / Por isto que é tão fria / E nasce no oriente / A luz do sol diferente / Desmancha todo magia”

Já cansado da luta, após quase quarenta anos de carnaval, o mestre não desanimava:

“ Só sei que não vou parar, / Já tomei a decisão / Tenho garras em minhas mãos / Pra criar minhas figuras, / Antes da morte chegar / Eu só deixo o carnaval / Quando for pra sepultura”.

Por Ranilson França (Folclorista falecido em 2006)


Pedro Teixeira de Vasconcelos

Faleceu no último dia 12 de abril de 2000, em Maceió, o folclorista Pedro Teixeira de Vasconcelos, vítima de complicações generalizadas.
Seu sepultamento aconteceu na cidade de Chã Preta, sua terra natal, acompanhado de uma grande multidão e de folguedos populares.
Nascido na casa grande do Engenho Bom Sucesso, aos 12 dias do mês de outubro do ano de 1916, tendo sido o mais velho dos sete filhos do casal Aureliano Teixeira de Vasconcelos e Maria Alzina Rebelo Vasconcelos.
Professor por convicção e idealismo, lecionou em várias escolas da capital e interior.
Na década de 60, incentivado pelo Mestre Théo Brandão, começa a ensinar os primeiros grupos folclóricos nas escolas publicas de Maceió: reisado e pastoril.
Ao longo do tempo, com apoio de Mestres de folclore, dentre eles Jorge Ferreira, Euclides Avalino, Mário de Assis, Cassiano Mandu, Alfredo Jesuíno, Terezinha Oliveira, Antônio Vicente Benedito Belarmino, assessorado pelos seus compadres Genésio e Nina. Com esta equipe, Pedro Teixeira conseguiu criar 14 grupos, entre os quais: presépio, pastoril, reisado, taieira, quilombo, maracatu, toré, chegança, fandango, baiana, coco e mais recentemente, nega da costa.
O Mestre pertenceu a diversas instituições culturais dentre as quais estão Conselho Estadual de Cultura, Comissão Alagoana de Folclore, Sociedade de Cultura Artística, foi membro do Conselho Consultivo da Fundação Teatro Deodoro, membro do instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, e era diácono permanente da Igreja Católica.
Ao lado de Théo Brandão, José Aloísio Vilela, José Pimentel de Amorim, José Maria de Melo, Abelardo Duarte e mais recentemente José Maria Tenório Rocha, entre outros,cujos estudos contribuíram para o engrandecimento do folclore alagoano.
Folclore, Dança, Música e Torneio; andanças pelo Folclore; Lendas e Causos e livro de sonetos Gorjeios do Sabiá, além de inúmeras publicações e jornais e revistas especializadas e muito ainda por publicar, foi a contribuição literária sobre o Folclore do Mestre Pedro Teixeira.
Teve razão, Prof. José Maria Tenório Rocha, quando referindo-se ao mestre, assim se expressou: É amigo de pessoas de todas as classes e , sempre que necessitamos de seus préstimos,ele está pronto a cooperar, forte, ágil e animado como adolescente, é aí que reside seu grande espírito animador de homem do povo, mantendo-se em seu lugar de grande educador. “Ou ainda na expressão dos Mestres de Baianas e Guerreiro, D. Maria do Carmo e Manoel Venâncio, por ocasião do falecimento do mestre:


Por Ranilson França (Folclorista falecido em 2006)


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